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Equilibrium (2002) – Crítica

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 Equilibrium é um filme norte-americano, do ano de 2002, dos gêneros ficção científica e ação, dirigido por Kurt Wimmer e protagonizado por Christian Bale.

A história se passa em um futuro distópico, após uma terceira, e destruidora, guerra mundial. A sociedade é controlada por um regime totalitário, que obriga a população a tomar uma droga chamada Prozium que anestesia emoções, prevenindo tensões sociais. John Preston, o protagonista, é um membro da instituição que mantém a ordem e para de tomar o remédio.

 

Antes de tudo é importante dizer que Equilibrium está sendo comparado um tanto quanto erroneamente com Matrix. Um tanto quanto, mas não totalmente. Explica-se: o gênero é o mesmo, ficção-científica de ação; o herói do filme, John Preston (interpretado por Christian Bale), é uma caricatura de Neo, inclusive com o mesmo jeitão e roupas parecidas durante todo o filme; assim como Matrix, Equilibrium passa-se num futuro devastado, mas agora o homem não é escravo das máquinas, e sim dele mesmo; finalmente, o filme contém algumas cenas de ação que são inclusive superiores às do primeiro Matrix, embora o orçamento limitado tenha feito com que a quantidade de ação encontrada no filme seja bastante inferior.

Este tópico me faz pensar na queima de livros promovida pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (ver Indiana Jones e a Última Cruzada), mas para quem se interessa pela história, verá que a queima de livros é constante, o imperador romano Constantino punia da mesma forma que os “terroristas” de Equilibrium quem escondesse livros que defendiam a doutrina ariana. O livro que inspirou Kurt Wimmer a escrever o roteiro de Equilibrium também continha sua queima de textos, através de um instrumento chamado “buraco de memória”, porém no caso dos livros, estes eram reeditados em novilíngua, e seu contexto era perdido.

Mas Equilibrium é também um filme diferente de Matrix. É muito mais humano e pessoal sobretudo: John Preston, o personagem central, é muito mais frágil (e, portanto, interessante) que Neo. No geral, a comparação é válida, mas não deve ser levada ao pé da letra. Equilibrium recorre mais uma vez ao tema do futuro negro, encontrado em tantas obras famosas e em outras nem tanto, como Blade Runner, Cidade das Sombras, Brazil – O Filme, A.I. – Inteligência Artificial, etc. À princípio, parece ser o mesmo velho clichê de sempre (e não deixa de ser): após a temida Terceira Guerra Mundial ter acontecido, nos primeiros anos do século XXI, os sobreviventes resolvem cortar a possibilidade de existência de uma futura guerra (que, segundo eles, aniquilaria de vez com todos), acabando com o principal motivo que leva a elas: os sentimentos.

Além da arte, pequenos gestos também levam a pessoa a sentir algo, um simples esparramar o cereal quando se está entediado, passar a mão pelo corrimão, uma corrida pelo corredor, um carinho num cachorro, ou uma reorganização na mesa de trabalho podem ser vistos como um crime, tais gestos são inibidos pela droga e pela denúncia. Este é o elemento que mais se aproxima da obra de George Orwell, em sua obra, o idealismo é o mal a ser combatido, qualquer indicação de pensamento próprio conferia à pessoa semanas ou meses no Ministério do Amor, onde a pessoa tinha seu espírito quebrado, e eventualmente aprendia a amar ao Grande Irmão. Em 1984, as crianças são incentivadas a vigiarem seus pais e denunciá-los caso cometessem crimideia, este conceito pode ser conferido em Equilibrium na maioria das cenas envolvendo o filho de Preston. Denúncias falsas aconteciam nestas duas obras, mas não estão muito longe da realidade, na história podemos conhece-la pelo nome de “Caça às Bruxas” ou “Caça aos Comunistas”.

“O Pai”, como é denominado o grande líder dessa nova sociedade, tem à sua disposição uma droga que deve ser injetada diariamente no organismo de todas as pessoas (por lei), para inibição de qualquer tipo de sentimentos. Os humanos passam a agir como robôs, mas ao menos estão livres dos piores males da humanidade, principalmente das guerras. Além disso, tudo que desperta qualquer tipo de emoção ou sentimento é terminantemente proibido no mundo de Equilibrium: arte, música, amor… Quem é possuidor de algum desses objetos ou emoções é simplesmente aniquilado (morto) por lei. Obviamente, há um enorme grupo de resistência que é contra a extinção dos sentimentos, e John Preston é um dos “sacerdotes” (os agentes do sistema mais respeitados e mais sapientes) que trabalha para exterminar essa resistência. Avassalado por um passado triste que, mesmo com a inexistência de emoções, corrói a sua mente, Preston acaba ficando sem tomar a droga durante um dia, e não consegue mais viver sem sentir emoções. Ele quer tê-las, mas tem que fazer de tudo para esconder das autoridades maiores e de seu novo parceiro.

Segundo a backstory apresentada no início do filme, toda esta distopia foi criada com o intuito de acabar com conflitos armados, após a humanidade sobreviver a uma Terceira Guerra Mundial. Durante esta contextualização vemos a imagem de alguns ditadores, como Saddam Hussein, Josef Stalin, Adolf Hitler, a semelhança entre os três está na cara, todos têm bigode espesso. Brincadeiras à parte, o filme usa estas figuras históricas para fazer sua crítica, sobre como eles abusavam do poder militar para impor sua vontade ou seus ideais, já a figura do Grande Irmão no livro de George Orwell esconde um sorriso misterioso em baixo de um grande bigode, claramente uma referência a Josef Stalin, portanto não é à toa que estas três figuras foram usadas no filme, como uma forma de fazer referência ao bigodudo do Grande Irmão, presente em todos os lugares nas páginas de 1984.

Esse é um resumo geral da história de Equilibrium, que ainda possui inúmeros pormenores, detalhes, que a tornam ainda mais interessante. Há vários personagens coadjuvantes muito bons, como o antigo parceiro de Preston (interpretado por Sean Bean), uma mulher da resistência ao sistema (Emily Watson) e o próprio “Pai”. O roteiro coloca várias reviravoltas no caminho de John, e felizmente todas elas conseguem elevar a história sempre um nível em termos de qualidade, o que faz com que o clímax do filme chegue com um tom até mesmo épico para o personagem. Infelizmente, porém, os personagens coadjuvantes não receberam o mesmo tratamento do roteiro e, embora sejam interessantes, não foram devidamente aproveitados. Servem apenas como ferramenta para o personagem do ator Bale se desenvolver. Por um lado isso é bom, já que torna a figura central do filme marcante; mas por outro lado faz com que os outros personagens sejam esquecíveis logo após o filme, infelizmente.

O discurso inicial do “Pai”, interpretado por Sean Pertwee, carrega o espírito do Grande Irmão, – percebam que enquanto 84 chama o líder de irmão, aqui o líder é um pai – aparecendo diante de um telão e televisão (ou devo dizer, “Teletela”) e negando à população que não há mais guerra, enquanto na verdade há uma guerra civil sendo travada na própria cidade, enquanto que no livro, o Estado mente para a população sobre contra quem a Oceania está em guerra, possivelmente não há uma guerra propriamente dita, mas a sociedade precisa sentir que está em guerra, isso a torna mais volátil, nem que esta guerra seja forçada como vimos acontecer durante o mandato Bush, lembrando que Equilibrium é um filme de ação pós 11 de setembro. SPOILER ALERT: 1984 não deixa claro se o Grande Irmão realmente existe, pode ser apenas um símbolo, este é um dos conceitos que me fascina neste livro, pois isto me faz pensar em outras figuras de liderança que talvez não tenham existido, mas mesmo assim são seguidas, Equilibrium se aproxima deste conceito quando nos é revelado que o Pai não existe, ele é na verdade alguém que ocupa um cargo elevado no Estado, Dupont, interpretado por Angus Macfadyen, a quem Preston servia, algo que deveria ser visto como a relação entre Winston e O’Brien, mas Equilibrium não segue por este caminho.

Outro ponto negativo de Equilibrium: embora a premissa seja bastante interessante e razoavelmente bem fundamentada, fica difícil acreditar que, mesmo após uma hipotética Terceira Guerra Mundial, a população como um todo se deixaria levar por um sistema que tira dela a permissão de ter qualquer tipo de emoções. Além disso, as próprias leis do sistema são às vezes risíveis: no início, é mostrada uma imagem de Hitler, como um exemplo de repressão que não deve acontecer novamente no nosso mundo; mas o próprio sistema implementado não dá a menor chance de explicação para quem o infringe, tanto que em certo momento a recomendação do “Pai” é a de matar sem dó todos os rebeldes. Oras, qual a diferença dessas ações para as de Hitler? Hitler tinha mais coração… Essas são algumas características forçadas do roteiro, que estão lá para tornar os objetivos de Preston mais difíceis, ao menos. Se você conseguir ignorá-las, vai conseguir apreciar toda a história numa boa.

Mudando um pouco de foco agora, as cenas de ação encontradas em Equilibrium são um capítulo à parte, e vão fazer os fanáticos pelo gênero, mesmo se ignorarem a história forte e interessante do filme, irem atrás da fita. Sem muitos recursos à disposição para encher a tela de efeitos especiais, o diretor Kurt Wimmer inventou, dentro do filme, uma modalidade de luta que utiliza armas de fogo (o estilo de luta tem inclusive um nome, do qual não me lembro agora). É basicamente um monte de piruetas ágeis que, se bem realizadas, fazem do seu mestre um assassino capaz de aniquilar dezenas de inimigos sozinho. John Preston é um dos maiores mestres desse estilo de luta, e você pode ter certeza que ele vai mostrar alguns movimentos de babar durante o filme. As coreografias ficaram excelentes e bastante impactantes (utilizam alguns efeitos por computação, mas aparentemente apenas para retocar as lutas), e a maioria delas é de cair o queixo.

John Preston é um herói que possui habilidades físicas incríveis, mas que por dentro vive atormentado por um grande dilema existencial. Chega a lembrar um dos tantos personagens de Stan Lee. Equilibrium pode ser visto como um filme de super-herói sem problemas – Preston seria um típico. Os efeitos especiais, usados em sua maioria para recriar uma metrópole futurista, estão decentes. O filme passa-se a maior parte do tempo em ambientes internos, o que faz com que eles não incomodem muito os espectadores mais exigentes nesse requisito. O filme conta ainda com uma trilha sonora bastante inspirada, que dá um clima melhor para as cenas de ação e tensão do filme. Não chega a ser uma trilha memorável, mas boa o suficiente para ser bem citada.

Equilibrium é um filme que vai ser lembrado pelos seus fãs nos anos a seguir. Com um roteiro sólido, boas atuações (se levarmos em conta o gênero), e cenas de ação de tirar o fôlego – tudo isso com um orçamento modesto – este filme é uma belíssima surpresa no gênero, tão desgastado desde que Matrix foi lançado em 1999 e várias cópias encheram as prateleiras das locadoras, uma pior que a outra. Claro, o próprio Equilibrium possui elementos que parecem “chupados” de Matrix, mas não se esqueça que poderia ser dito que Matrix possui elementos chupados de outros filmes anteriores também (Cidade das Sombras é talvez o mais óbvio deles, em termos de enredo principalmente). Não é um filme revolucionário, apenas uma ótima história executada de forma correta e com pouquíssimas derrapadas.

Equilibrium tem um plot que faz a gente imediatamente se lembrar de 1984, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451 e outros filmes e livros sobre futuros distópicos e Estados totalitários. Existe comparação pelo visual dos figurinos e pelo estilo das artes marciais nas cenas de ação . Mas ao contrário de Matrix onde a luta marcial é ensinada a Neo como forma de controle mental para superar a ilusão daquele mundo virtual, em Equilibrium é uma ferramenta de controle militar. As lutas marciais usadas pelos oficiais de elite da lei os Grammatons ou “sacerdotes”, como são designados no filme, são muito mais do que instrumentos para exterminar os “ofensores”. Elas precisam envolver autocontrole corporal e mental, princípio do controle dos sentimentos desta sociedade.

Os efeitos visuais são escassos e bem artificiais em alguns momentos, usados em sua maioria para recriar uma metrópole futurista. O filme passa-se a maior parte do tempo em ambientes internos, o que faz com que eles não incomodem muito os espectadores mais exigentes nesse requisito, isso se deve ao baixo orçamento . O filme conta ainda com uma trilha sonora bastante inspirada, que dá um clima melhor para as cenas de ação e tensão. Não chega a ser uma trilha memorável, mas boa o suficiente.

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