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Encanto (2021) – Crítica

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Encanto é a nova animação da Disney situada na Colômbia, sobre a extraordinária família Madrigal, que vive escondida em uma região montanhosa isolada, conhecido como Encanto. A magia da região abençoou todos os meninos e meninas membros da família com poderes mágicos, desde superforça até o dom da cura. Mirabel é a única que não tem um dom mágico. Mas, quando descobre que a magia que cerca o Encanto está em perigo, ela decide que pode ser a última esperança de sua família excepcional.

 

Encanto é a história da família Madrigal, cujos membros passam por uma espécie de cerimônia de amadurecimento na qual recebem habilidades especiais como super força, super audição e controle sobre a fauna e flora. Mirabel (voz de Stephanie Beatriz em inglês) foi a única que não recebeu poderes quando a sua hora chegou, o que preocupa a matriarca da família, Alma (María Cecilia Botero), e todo o vilarejo que os Madrigal construíram ao redor de sua casa igualmente mágica.

Essencialmente, a história que o filme conta é sobre como a pressão por perfeição pode sufocar, como uma vida dedicada ao serviço do outro pode levar ao esquecimento e negligenciamento do eu. Luisa (Jessica Darrow), uma das primas de Mirabel, até tem um fabuloso número musical solo que explicita esse discurso, talvez a melhor composição de Lin-Manuel Miranda em (mais) um ano prolífico para o criador de Hamilton, que é complementada por alguns dos voos estilísticos mais ousados de uma animação da Disney em anos.

É um texto contundente em si, sem dúvida, mas a verdadeira riqueza de Encanto é como ele localiza essa narrativa em específico no cenário colombiano (ou seja, latino) onde se passa a história. O filme levanta a ideia da “minoria modelo”, que posiciona o sucesso ou prosperidade de membros individuais de qualquer minoria como exemplo a ser seguido, ideal a ser alcançado, para todos que pertencem a ela – o que não só substitui senso de comunidade por senso de competição, como também coloca sobre o indivíduo bem-sucedido uma expectativa de perfeição irreal e desequilibrada em relação ao que é exigido de pessoas na mesma posição que não pertencem a minorias.

Assinado pelos diretores Bush e Castro-Smith, o roteiro de Encanto é um apelo apaixonado pela humanidade real, completa, de seus personagens latinos. O filme fala de uma humanidade que reconhece e inclui os talentos extraordinários dos Madrigal, mas também suas preocupações e angústias mais corriqueiras, as intrigas mais mesquinhas que existem entre eles, as incompreensões mais graves que formam o tecido de qualquer família. A convergência de todas essas imperfeições, de fato, é o que forma a jornada emocionante que o longa constrói – é aquela regra cardeal da boa narrativa: sem conflito, não há história.

Ao redor de toda essa ginástica retórica, vale mencionar, Encanto é também uma maravilha visual. Um dos aspectos mais interessantes do filme é como ele se passa quase todo inteiramente dentro da casa dos Madrigal, com algumas incursões pelo vilarejo – e, mesmo assim, encontra formas de expandir e diversificar o espaço para transmitir o mesmo senso de aventura épica de um Raya e o Último Dragão, que construiu todo um mundo de fantasia à la O Senhor dos Anéis e Avatar: A Lenda de Aang.

Encanto tem como protagonista a jovem Mirabel (cuja voz original é da atriz Stephanie Beatriz, de Brooklyn Nine-Nine), parte da família Madrigal, um clã enorme e mágico que vive em conjunto em uma casa viva – de forma que lembra os objetos encantados do castelo de A Bela e a Fera. Na infância, os membros recebem dons mágicos e únicos, como a habilidade de falar com animais, controlar o clima, entre outras, e são estes poderes o que define as funções de cada um na comunidade. Todos, exceto Mirabel.

Enquanto vê a mãe, irmãs e primos com dons extraordinários, Mirabel lida com o fato de não se sentir especial por não ter nenhum – uma situação que, não é arriscado dizer, vai tocar facilmente a maioria de nós. É com esta premissa que Encanto ganha o público adulto ao provocar uma reflexão sobre o quanto comparar-se com outras pessoas é um hábito que pode se tornar perigoso – tudo isso ao mesmo tempo em que entretém as crianças com um visual mágico e personagens cativantes.

É ótimo que o filme da Disney não tente pintar a “família” como um conceito inquestionável e composto de pessoas perfeitas, mas sim como um grupo em que a comunicação é fundamental, assim como em qualquer outro. A única forma de realmente conhecer e entender pessoas tão próximas é se abrir para ouvir suas histórias e entender de onde vieram – é assim que Mirabel entende quem ela é, por que é assim e quais caminhos pode tomar. É libertadora a ideia de que nem sempre é preciso agradar, mas que laços verdadeiramente fortes vão muito, muito além disso.

Em junho de de 2021, a Pixar e Disney lançaram Luca no streaming, a aposta mais certeira para a temporada de premiações de 2022 e que tem grandes méritos técnicos e na forma como transmite sua mensagem, mas Encanto parece trazer uma abordagem mais direta de um tema universal, coroado com músicas viciantes – uma fórmula que já vimos vencer muitas e muitas vezes.

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