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Contágio (2011) – Crítica

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Contagion (Contágio) é um filme estadunidense de 2011 dirigido por Steven Soderbergh e protagonizado por Matt Damon, Jude Law, Kate Winslet, Laurence Fishburne, Marion Cotillard, Gwyneth Paltrow, Bryan Cranston, Jennifer Ehle e Sanaa Lathan. Seu enredo trata da propagação de um vírus transmitido por fômites e das tentativas de pesquisadores, médicos e funcionários de saúde pública para identificar e conter a doença, da consequente perda de ordem social com o avanço da pandemia e a introdução de uma vacina para impedir sua propagação. Como outros filmes de Soderbergh, o espectador acompanha várias tramas interativas que se entrelaçam e complementam.

Beth Emhoff faz uma viagem de negócios para Hong Kong com uma escala em Chicago onde encontra um ex-amante. Dois dias depois de voltar para casa, nos subúrbios de Minneapolis, ela desmaia e tem convulsões. Seu marido, Mitch Emhoff, a leva para o hospital, mas ela morre por uma causa desconhecida. Ele volta para casa e descobre que seu enteado Clark também morreu, aparentemente pelo mesmo motivo. Mitch é isolado, mas é considerado imune; ele é libertado e volta para casa com sua filha adolescente Jory. Outros casos da doença misteriosa surgem em Chicago, Hong Kong, Tóquio e Londres.

 

Em Atlanta, representantes do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos se reúnem com o Dr. Ellis Cheever, dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), e expressam temores de que a doença seja uma arma biológica destinada a causar terror no fim de semana de Ação de Graças. Cheever envia a Dra. Erin Mears, oficial do Serviço de Inteligência Epidêmica, para investigar em Minneapolis. A Dra. Mears rastreia a origem do surto chegando até Beth. Ela negocia com o poder público local, que reluta em comprometer recursos para uma resposta de saúde pública.

Em Hong Kong, a epidemiologista da OMS, Dra. Leonora Orantes, e as autoridades de saúde pública procuram filmagens onde Beth aparece em um cassino junto aos primeiros casos de Hong Kong, Tóquio e Londres e a identificam como a paciente zero. O funcionário do governo Sun Feng sequestra a Dra. Orantes para obter doses de uma futura vacina para sua aldeia. Enquanto isso, em Minneapolis, a Dra. Mears contrai a doença e morre. À medida que o novo vírus se espalha, várias cidades são colocadas em quarentena, e saques e violência eclodem.

No CDC, a Dra. Ally Hextall determina que o vírus desconhecido é uma mistura de material genético de vírus transmitidos por porcos e morcegos. O CDC tenta trabalhar em uma cura mas os cientistas não conseguem uma cultura de células na qual cultivar o recém-identificado vírus MEV-1. O professor Ian Sussman, da Universidade da Califórnia em São Francisco, viola as ordens do Dr. Cheever, que tinha mandado destruir suas amostras, e consegue cultivar o MEV-1 usando células de morcego. A Dra. Hextall usa a inovação para começar a trabalhar em uma vacina. Outros cientistas determinam que o vírus é transmitido por fômites, com um número básico de reprodução (R0) de quatro quando o vírus sofre mutação; eles projetam que uma em cada doze pessoas no mundo será infectada, com uma taxa de mortalidade de 25 a 30%.

O teórico da conspiração Alan Krumwiede publica vídeos sobre o vírus em seu blog. Em um vídeo, ele afirma que se curou do vírus usando uma cura homeopática derivada da forsítia. As pessoas que procuram forsítia atacam farmácias e lutam pelo medicamento. Durante uma entrevista na televisão, Krumwiede revela que o Dr. Cheever informou secretamente a amigos e familiares para que deixassem Chicago antes da cidade entrar em quarentena, e ele é informado depois que será investigado. Mais tarde, Krumwiede, tendo fingido sua doença para aumentar as vendas de forsítia, é preso por conspiração e fraude.

Usando um vírus atenuado, a Dra. Hextall identifica uma possível vacina. Para reduzir o tempo que levaria para obter o consentimento informado dos pacientes infectados, Hextall se inocula com a vacina experimental e visita seu pai infectado. Ela não contrai a doença e a vacina é declarada um sucesso. O governo oferece as vacinas por loteria com base na data de nascimento. A essa altura, o número de mortos chegou a 2,5 milhões nos Estados Unidos e 26 milhões em todo o mundo.

Meses depois de ser sequestrada, a Dra. Orantes se afeiçoou aos moradores da aldeia. A vacina recém-criada é fornecida por funcionários da OMS em troca da liberdade dela. Ao descobrir que as vacinas dadas à vila eram placebos, ela corre para avisá-los.

Finalmente, em um flashback, um trator da empresa em que Beth trabalhava derruba duas palmeiras em uma floresta tropical na China, perturbando alguns morcegos que aí se abrigavam. Um desses morcegos resolve se alimentar numa bananeira. Esse morcego encontra abrigo em uma fazenda de porcos e deixa cair um pedaço da banana, da qual se alimentava, e esta é comida por um porco. O porco é abatido e preparado por um chef de um restaurante, que aperta a mão de Beth após apenas limpar grosseiramente as mãos no avental, transmitindo o vírus para ela e revelando o início da pandemia.

Pandemias, surtos e outros acontecimentos que desestruturam a “nossa ordem” são momentos pontuais para a análise do comportamento humano. A atual onda do vírus que tem provocado mudanças radicais na economia, na política e na sociedade em 2020 representa uma das pandemias que mais sacolejou o planeta nos últimos séculos, num alcance gigantesco por causa das nossas dinâmicas de interação global. Como também estamos mergulhados numa era sem precedentes na história do compartilhamento de informações, tornou-se mais delineado observar como a humanidade pode ser boa e ruim em medidas semelhantes. Do vídeo que apresenta um jovem belga supostamente contaminado a espalhar saliva num metrô aos profissionais de saúde que se arriscam em prol da resolução da crise, eventos pandêmicos mostram o melhor e o pior da nossa sociedade.

Contágio, dirigido por Steven Soderbergh, é um entre tantos filmes sobre o assunto. A sua diferença em comparação aos demais é a maneira como desenvolve a história, com os excessos comuns ao terreno ficcional, haja vista ser uma produção de entretenimento, não um documentário institucional encomendado pela OMS ou pelo nosso Ministério da Saúde. Guiado pelo roteiro de Scott Z. Burns, o suspense nos apresenta uma pandemia de origem animal, assustadoramente crível, principalmente da maneira didática que é mostrada no desfecho do filme, o dia 01 da contaminação, afinal, observará que a narrativa se desenvolve a partir do segundo dia de desdobramento do vírus que parte de um morcego, atrela-se aos porcos e ganha a sociedade por meio de nossas práticas gastronômicas, dentre outros meios de contato.

Dirigido com firmeza por Soderbergh, veterano ao assumir produções com linhas narrativas múltiplas, Contágio abarca três setores da sociedade: o cidadão comum, as instituições públicas e a mídia, pilares importantes para que haja ritmo nos elementos dramáticos que nos são apresentados. Na seara cidadã, temos Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow), a paciente-zero, mulher que viajou para Hong Kong a trabalho e tornou-se vetor de propagação do vírus nos Estados Unidos. Em seu retorno, ela apresenta os problemas da contaminação e transmite para o seu filho Clark (Griffin Kane). Ambos são as duas vítimas levadas sem piedade logo nos primeiros minutos de filme. Mitch (Matt Damon), seu marido, é testado, mas não chegou a ser contaminado, o que não o impede de manter-se na luta pela sobrevivência diante do caos.

Em paralelo, acompanhamos outras trajetórias, mas é na família Emhoff que os conflitos do setor cidadão se desenvolvem. Dr. Ellis Cheiver (Laurence Fishburne) representa as autoridades ao comandar a pesquisa do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos) e mediar a investigação da Dra. Erin Mears (Kate Winslet). A OMS é representada pela Dra. Leonora Orantes (Marion Cotillard), personagem que causa certo desconforto diante do sumiço abrupto no meio da história, sem o devido desenvolvimento, quando comparada com os demais. Ela, como ilustração da presença de uma organização em nível mundial, deveria ter sido melhor aproveitada pelo roteiro que consegue se erguer na boa exposição das outras histórias. A mídia, grande vilã, ganha forma por meio de Alan Krumwiede (Jude Law), blogueiro conspirador que presta desserviços informativos, mesmo que as suas teorias tenham alguma proximidade com as nossas desconfianças diante das instituições que nos regem.

Assim, da exposição sobre a dinâmica fômite da contaminação, isto é, a presença do vírus em superfícies que podem estar comprometidas, dai a importância da higienização, comentada pela personagem de Kate Winslet, temos os questionamentos de Krumwiede sobre quem vive e quem morre, num debate acerca das prioridades na vacinação, listas que nem sempre obedecem preceitos éticos. O personagem de Fishburne é a prova cabal disso, ao injetar a vacina em sua esposa por gozar de privilégios internos, mesmo a moça sendo o número 287 de uma gigantesca lista. Há também uma abordagem bem realizada da propagação do medo, além de hábitos culturais questionáveis, tais como o ato de um homem em um metrô ao filmar o ataque de uma vítima ao invés de prestar socorro. Em todos blocos narrativos presenciaremos personagens inconvenientes, os chamados sem noção, como não poderia deixar de ser em situações emergenciais como as apresentas em Contágio.

Os segmentos ganham a devida coesão com a edição eficiente de Stephen Mirrione, profissional que tem como material, as imagens captadas pela boa direção de fotografia de Soderbergh, em dupla jornada interna, cineasta que contou com o design de produção de Howard Cummings e os efeitos visuais da equipe de Thomas J. Smith, setores tornam o filme uma experiencia visualmente gratificante. Os cenários assinados por Cindy Carr permitem que estejamos constantemente em diálogo com as dimensões sociais e físicas dos personagens, criaturas que circulam por espaços domésticos, escritórios, laboratórios ou até mesmo por espaços públicos, ambientes que ajudam no processo imersivo, delineados pela também eficiente direção de arte da equipe de Simon Dobbin, repleta de objetos significativos.

Além de toda visualidade apurada, Contágio é uma produção que goza dos privilégios de uma eficiente trilha sonora, condução musical comandada por Cliff Martinez, textura percussiva que ganha maior impacto junto ao design de som de Billy Theriot. Ademais, Contágio é eficiente ao abordar a importância da pesquisa científica no desenvolvimento de uma sociedade politizada e consciente. Estamos vulneráveis a todo tempo e o histórico das grandes pestes e pandemias nos últimos séculos comprova isso muito bem, da disseminação da Peste Bubônica, ao HVI, passando pelas gripes (espanholas, aviárias, etc.). Sem parecer panfletário, o filme destaca como as indústrias, em especial, a farmacêutica, lucram bastante com o caos alheio, além de demonstrar sem excessos a maneira como nos comportamos quando as coisas são do fio retilíneo que empregamos para a nossa agenda diária.

Farmácias são invadidas, os consumidores disputam produtos nas prateleiras, indo da gentileza aos tapas quando as ofertas se tornam escassas, além da constante pressão governamental diante da comunidade científica, setor geralmente tratado como inimigo da economia capitalista. O mundo paralisa, o pânico torna-se generalizado, a mídia cria reportagens tendenciosas e atualmente, alguns perfis de redes sociais e aplicativos como o whatsapp trabalham na proliferação de fake news. Um horror absoluto! No entanto, produções de grande alcance assim não devem generalizar o ciberespaço, pois há também uma grande parcela da sociedade civil e da mídia engajadas na disseminação de informações que diminuam os impactos de tantas falácias. É o que faltou com Contágio: uma abordagem mais plural da cultura da mídia, pois parece que na internet há espaço apenas para desinformação.

Fora isso, a produção cumpre a sua função de ser bom entretenimento e ainda permitir muitas reflexões. De tão relevante, tornou-se um hit quase dez anos após o seu lançamento, haja vista a atual situação do planeta diante do COVID 19, popularmente chamado de corona vírus, segmento da microbiologia que ganhou abordagem na 12ª temporada da infinita Grey’s Anatomy e provavelmente vai ser tema de muitos filmes e documentário nos próximos anos. Segundo jornalistas e outros especialistas no campo da informação, o número de acessos ao filme em plataformas cresceu vertiginosamente das primeiras semanas de 2020 ao atual panorama pandêmico. A sociedade comprova, mais uma vez, as teorias da recepção que flertam sobre a necessidade da arte ao metaforizar as nossas fobias sociais mais profundas. Contágio mostra muito bem que A Gripe e Epidemia, os desdobramentos sociais diante das doenças do globalismo, oriundas do turismo das trocas culturais, das locomoções intercontinentais, bem como os seus velozes vetores de transmissões e a importância de encontrar o paciente zero para solucionar o problema de forma definitiva.

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