A Gaia Ciência – Friedrich Nietzsche – Resenha

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A Gaia Ciência, escrito pelo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche, é uma das suas obras mais lidas até hoje e apresenta a discussão sobre a história e filosofia do saber. Não é, de forma alguma, um relato histórico, mas sim uma crítica à religião, ciência e moralidade e até hoje, um século depois, apresenta uma critica atual.

 

Em a Gaia Ciência, Nietzsche se mostra otimista com o futuro da humanidade, ou pelo menos com aqueles de espírito livre, que enxergam e vivem fora do eixo da moral, construtores de virtudes, os indivíduos com vontade de potência, de avançar, criar, serem desafiados, derrotados, e levantarem para novos desafios. Em uma palavra, os corajosos em viver.

Aliada a essa defesa está uma constante crítica aos modos contemporâneos, à busca de elevar a produtividade, de trabalhar cada vez mais: “a era mais laboriosa de todas – a nossa era – não sabe o que fazer com tanto trabalho e tanto dinheiro, além de produzir cada vez mais dinheiro e mais trabalho”. O deslocamento do preconceito contra o trabalho, de séculos passados, se torna contra o ócio. Essa passagem fornece um exemplo do que falei no início da resenha: o livro nos ajuda a pensar e refletir. Antigamente, pelo menos para a aristocracia, trabalhar não era algo honroso, hoje se tornou um dogma. Sofre sanções morais quem não trabalha. Por que essa mudança? Quem a operou?

A ciência também sofre críticas com o modo, segundo Nietzsche, de buscar a “sua verdade”, principalmente pela análise da causalidade. A tentativa de explicar o mundo de forma mecânica e, por isso mesmo, em contraste com a forma como Nietzsche o interpreta, como um ambiente de múltiplos significados e sentidos, é vista como simplista e estreita, tendendo a empobrecer o sentido da vida para os seres humanos – daí a crítica do parágrafo anterior sobre uma vida direcionada apenas ao trabalho e ao acúmulo de dinheiro: para Nietzsche, são formas de viver que limitam as possibilidades do homem, estreitam a sua visão.

Uma das ideias centrais da obra é o eterno retorno, conceito que mostra a circularidade de nossas ações e objetivos na Terra. Esse termo, se não estou enganado, não aparece durante o livro, mas está subtendido em várias de suas passagens, como nossa tentativa de levar uma vida como “artistas” – Nietzsche afirma que todos somos artistas, no sentido de fingir o que realmente somos; às vezes acreditando nesse disfarce. Ainda que usemos esse véu para nos escondermos, cedo ou tarde enfrentaremos parte da realidade, as contradições dessa máscara. A insatisfação com a vida que sempre volta e a felicidade que sempre foge de nós pode criar ressentimentos, e estes modelar a forma como seremos, e na verdade somos.

Neste livro encontra-se uma das mais famosas frases de Nietzsche: “Deus está morto”. Em duas seções vemos esta afirmação, conforme:

“Depois de Buda ter morrido, foi mostrada ainda durante séculos sua sombra numa caverna – uma sombra enorme e aterradora. Deus morreu: mas assim são feitos os homens que haverá talvez ainda durante milhares de anos cavernas nas quais se mostrará sua sombra – e nós devemos ainda vencer sua sombra.”. §108 – Lutas Novas.

“[…] Deus Morreu! Deus continua morto! E fomos nós que o matamos! Como havemos de nos consolar, nós, assassinos entre os assassinos! O que o mundo possuiu de mais sagrado e de mais poderoso até hoje sangrou sob nosso punhal – e quem nos lavará desse sangue? […]”. §125 – O Insensato.

Nietzsche reconhece a crise que a morte de Deus causa a nossa moral, pois se o Cristianismo morre, também junto com ele morre a moralidade Cristã. Por isso a passagem em “O Insensato” é dirigida aos ateístas, o problema é reter um sistema de morais na ausência de uma figura divina. Como por exemplo: Um ateu se fazer uso de morais baseadas no Cristianismo, como haverá ele de justificar sua moralidade? Da mesma forma, um estado que se diz laico, justifica suas leis através da moral cristã, a tão famosa defesa à família tradicional, como haverá o estado a defender esta moral não-laica?

A morte de deus é uma maneira de dizer que nós humanos, e toda nossa civilização ocidental, não deve mais depender de tal crença. A morte de Deus vai levar, como diz Nietzsche, não só a rejeição de uma divindade, mas também à rejeição dos valores absolutos que baseiam nossa sociedade. A rejeição destes valores nos leva ao Niilismo. Nietzsche acreditava também, que quando a morte de Deus se tornar mais difusamente conhecida, todos sucumbirão ao Niilismo. Este é um dos motivos de considerar o Cristianismo como Niilista.

É neste contexto que Nietzsche busca valores e bases mais profundas que as encontradas no Cristianismo para justificar a moralidade, com valores fundamentados no amor à vida e a este mundo, não no paraíso.

Ainda segundo Nietzsche, poderiam surgir agora possibilidades positivas para aqueles sem Deus. Renunciando a crença em Deus, abrimos novas possibilidades de desenvolvimento das habilidades de nossa espécie, “Deus não estaria mais no caminho”, agora não olharíamos mais para o reino do sobrenatural para reconhecer o valor deste mundo. Nietzsche usa a metáfora de um mar aberto, que pode ser ao mesmo tempo excitante e aterrorizante.

As divisões do livro podem parecer, a princípio, aleatórias, todavia, não o são em sua totalidade. Nietzsche inicia discutindo o comportamento dos indivíduos presos ao instinto de rebanho, suas consequências para a formação da sociedade, bem como a moral envolvida nesse processo. Posteriormente, mostra o que seria as pessoas fora desse campo, os de espírito livre. Se aproximando do final, o autor descreve uma nova forma de ver e viver a vida (“viver perigosamente”), com coragem, sem conformismo. Nessa parte o título da obra dialoga de forma mais próxima com o seu conteúdo.

Como o livro da resenha anterior, não considero um livro fácil de ser entendido. O próprio Nietzsche gosta de colocar essa dificuldade – o que vejo com bons olhos, um desafio para o leitor. Outra vantagem do livro são os inúmeros questionamentos e observações sobre temas diversos, sem uma conexão direta com o objetivo da obra – momentos que geram reflexões. No geral, é uma leitura desafiadora, mas que vale a pena no final.

A pessoa que eventualmente aprender a criar sua vida de novo representará um novo estágio na existência humana, o Übermensch (Super-Homem em alemão), que através da conquista de seu próprio niilismo, se torna ele mesmo um herói mítico a desbravar este novo mar aberto.

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