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No Mundo de 2020 (1973) – Crítica

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 Soylent Green (No Mundo de 2020) é um filme estadunidense de 1973, do gênero thriller distópico, dirigido por Richard Fleischer e estrelado por Charlton Heston e Leigh Taylor-Young. Edward G. Robinson aparece em seu último filme. Vagamente baseado no romance de ficção científica de 1966 Make Room! Make Room! por Harry Harrison, que combina dois gêneros: polícia processual e ficção científica; a investigação sobre o assassinato de um homem de negócios rico e um futuro distópico de oceanos em extinção e da umidade durante todo o ano devido ao efeito estufa, resultando em poluição, pobreza, superpopulação, eutanásia e recursos esgotados.

No ano de 2022, a cidade de Nova Iorque conta 40 milhões de habitantes. Para alimentar as inúmeras pessoas pobres e desempregadas, existem tabletes verdes chamados de Soylent Green, produzidos inicialmente através da industrialização de algas. Somente os ricos tem acesso a comidas raras, como carnes, frutas e legumes.

Quando um rico empresário das indústrias Soylent Corporation é assassinado em seu luxuoso apartamento, o detetive policial Robert Thorn começa a investigar. Ele de imediato suspeita do guarda-costas do empresário, que alega ter saído na hora do crime. Após interrogá-lo, Thorn vai ao apartamento dele e encontra coisas suspeitas, como uma colher com restos do caríssimo morango. Enquanto Thorn persegue o guarda-costas, seu idoso parceiro Sol começa a investigar os registros e papéis do empresário morto. E acaba descobrindo uma verdade estarrecedora sobre o tablete verde.

 

No Mundo de 2020 (Soylent Green) é um filme futurista americano produzido em 1973, dirigido por Richard Fleischer (1916 / 2006) e com elenco de grandes nomes como Charlton Heston (1923 / 2008) e o romeno Edward G. Robinson, que curiosamente faleceu logo após as filmagens aos 79 anos. O roteiro é de Stanley R. Greenberg, inspirado na história “Make Room! Make Room!” (1966), de Harry Harrison.

Ambientado mais precisamente em 2022, nosso planeta está totalmente poluído, com os recursos naturais esgotados e enfrentando uma grave crise com superpopulação. A cidade de New York tem quarenta milhões de habitantes e o mundo passa fome, com as pessoas pobres e desamparadas sendo apenas alimentadas por tabletes chamados “verde soilente” (do título original), obtidos a partir de algas dos oceanos. E apenas uma pequena parte da população rica tem acesso à comida “de verdade” como frutas e carnes.

Esse alimento industrializado é fornecido em monopólio por uma empresa onde um de seus diretores, William R. Simonson (Joseph Cotten), é encontrado misteriosamente morto em seu apartamento de luxo. O policial Thorn (Charlton Heston) é o encarregado das investigações, auxiliado por seu companheiro veterano Solomon Roth (Edward G. Robinson), com quem mora e sempre conversa sobre o passado recente da humanidade, quando a natureza ainda estava viva e existiam rios, peixes, animais, flores e árvores.

Um dos momentos emblemáticos do filme Soylent Green (EUA, 1973, direção de Richard Fleischer) acontece em um confronto entre a multidão e a polícia nas ruas da New York de 2022. O povo é reprimido com auxílio de enormes escavadeiras. Assim temos a inusitada cena de pessoas sendo colhidas pelas pás e colocadas para dentro dos veículos igual a sacos de lixo ou simplesmente sendo arremessadas para longe a fim de desobstruir as ruas.

A massa é representada por figurantes cobertos de poeira, alguns usando máscaras cirúrgicas, toucados e lenços nos cabelos, roupas largas acizentadas ou esverdeadas. Olhares distantes, tristes e indignados. Algo análogo aos prisioneiros dos campos de concentração. Ou funcionários de limpeza que mal damos conta da existência.

Durante as investigações, Thorn entra em contato com o suspeito guarda-costas do falecido, Tab Fielding (Chuck Connors), e conhece a bela jovem Shirl (Leigh Taylor-Young), uma “alugada”, empregada que fazia parte do aluguel do apartamento e servia também de acompanhante para o inquilino. Ao descobrir que o rico empresário foi na verdade assassinado, Thorn desperta a ira de pessoas importantes do poder econômico e político da cidade, com seus interesses obscuros ameaçados, principalmente o Governador Santini (Whit Bissell), ao mesmo tempo em que também descobre um segredo terrível envolvendo a matéria-prima do “verde soilente”.

No Mundo de 2020 apresenta uma distopia perturbadora, com a Terra devastada pelo efeito estufa, natureza em decadência, um lugar onde os rios, animais e plantas são coisas do passado, e a humanidade enfrenta a fome e falta de espaço nas grandes cidades. Há escassez de água, comida, papel, energia, saneamento. Não existe dignidade mínima de sobrevivência. Nesse cenário aterrador, apenas os ricos usufruem de luxos como sabonete e água quente, ou comer frutas e carnes.

O elenco é de primeira linha e os destaques certamente são as interpretações de Charlton Heston (com excepcional currículo que inclui o clássico Planeta dos Macacos) e Edward G. Robinson, numa ótima interação entre eles, criando empatia com o espectador preocupado com seus destinos num ambiente de caos.

De que trata Soylent Green?

Na segunda década do século XXI a paisagem da Terra está extremamente modificada. O calor é impiedoso e contínuo. A luta pela sobrevivência é estenuante. O verde é raríssimo nas grandes cidades e o que restou dos campos é protegido militarmente como se fosse um tesouro. Boa parte da vida animal está quase extinta. Sendo assim, o consumo de carne é um privilégio e a maioria da população é compulsoriamente vegetariana. Todavia, legumes, verduras e frutas não estão acessíveis a todos. Por exemplo, um frasco com frutas custa cerca de 150 dólares. O povo é alimentado através de tabletes verdes industrializados em larga escala chamados de Soylent Green (algo como as nossas barrinhas de cerais). Oficialmente somos informados que sua composição consta de algas marinhas e plancton dos oceanos.

O filme segue mostrando a rotina do policial/ detetive Robert Thorn na superpopulosa New York de 2022. É um caos de mais de 40 milhões de habitantes, onde o desemprego atinge metade deste contigente. Há graves problemas de abastecimento de água. Os sem teto dormem amontoados nos cantos. Funerais não existem mais. Os mortos são levados em veículos semelhantes a caminhões de lixo.

Para os apreciadores de cinema, sempre existem algumas sequências de filmes que ficam eternizadas em nossa memória até o fim de nossos dias. A grande maioria não fica armazenada e rapidamente é descartada, às vezes logo em seguida ao terminarmos de ver os filmes. Porém, ao contrário, tem momentos que ficam gravados para sempre em nossa mente. Como é o caso para mim de uma sequência poética de No Mundo de 2020 sobre o “asilo”, com o roteiro explorando a ideia de eutanásia como forma de minimizar os efeitos da superpopulação, também numa relação com o misterioso “verde soilente”. O policial idoso Solomon, cansado da degradação do planeta e de viver apenas com as boas lembranças do passado, decide livre e espontaneamente visitar o “asilo”. Lá, ele é muito bem recepcionado e depois de fazer uma rápida entrevista sobre suas preferências de cor e tipo de música, vai para uma sala especial ver um vídeo em tela grande, com belíssimas imagens da natureza que dava vida à Terra, ao som da sinfonia “Pastoral”, de Beethoven. Essa sequência deveria ser vista por todos e sempre, como uma mensagem para talvez a humanidade evitar que a realidade do filme possa se tornar verdade no futuro e que a natureza possa ser respeitada nesse planeta.

Thorn possui certo senso do seu dever. É a única coisa que lhe sobrou numa sociedade esgarçada. Procurar outra colocação ou constituir uma família parece uma insanidade neste contexto. Portanto tenta fazer seu trabalho da melhor forma possível, dentro da estrutura precária e corrupta. Ainda tem alto grau de malandragem e jogo de cintura para sobreviver.

O policial é incubido de investigar o assassinato de um homem rico, William R. Simonson (Joseph Cotten), ligado à corporação que produz o Soylent Green, em seu luxuoso apartamento. Todavia, ele parece ter aceitado deliberadamente sua morte, após um breve e enigmático diálogo com o seu executor. Assim a missão de Thorn começa sem muitas pistas. Shirl (Leigh Taylor-Young), a namorada (ou melhor, espécie de concubina e secretária) de Simonson não se encontrava no momento. O mesmo acontece com o guarda-costas do morto.

Então, o misterioso petisco esconde um segredo terrível. Já não tarda muito a vida de Robert Thorn estar sob ameaça.

Com o tempo aparece um laço de afeição entre Thorn e a belíssima Shirl. Seu status social é curioso. Depende das graças de cada novo ocupante do sofisticado apartamento, geralmente executivos, políticos e empresários. Tem que agradá-los (em vários sentidos) para não correr o risco de ficar na rua. Considerá-la um tipo de prostituta é algo um tanto redutor. É uma personagem que durante o filme todo não apresenta nenhuma explosão de violência. Aparentemente tenta manter o sangue frio e certa racionalidade, calculando suas chances de se dar bem neste ambiente áspero.  Em dado momento o detetive Thorn pergunta a ela como consegue manter a serenidade em meio a esta situação no fio da navalha em que vive…

Thorn divide seu apartamento com o idoso Sol Roth, homem de vasta cultura e enorme carga de sofrimento. Ex-músico e professor universitário Sol constitui a alma do filme, pois é como um guardião da memória. Conheceu e saboreou parte do mundo antes da catástrofe social e ambiental. Seus diálogos espirituosos com Thorn são excelentes. De partir o coração é a cena em que Thorn aparece com um pedaço de carne (e outras coisas) que havia surrupiado numa investigação e o oferece a Sol, que depois prepara um jantar como há muito não fazia.

Este personagem é o ponto de convergência em torno do mistério do filme, pois ao tomar conhecimento do segredo do Soylent Green decide que sua estadia na Terra está encerrada, mas incube Thorn de divulgar a verdade para todos.

Num momento decisivo, Sol parte para uma instituição governamental chamada Casa, que pratica uma forma de eutanásia. Após o medicamento ser aplicado, diluído numa bebida, Sol vai para uma sala onde é envolvido por projeções em alta definição com cenas do mundo que havia conhecido e que não existe mais. Incube Thorn de desvendar e revelar a humanidade o mistério que envolve Soylent Green.

A figura de Sol Roth é ainda mais poderosa porque o veterano ator Edward G. Robinson interpretou-o em precárias condições de saúde. Poucos dias depois das filmagens morreria de câncer.

Quanto a presença de traquitanas futuristas, há em Soylent Green um grande despojamento. Não existe grandes acréscimos nos armamentos e comunicações. Os telefones são bastante convencionais, bem como revólvers e metralhadoras. Os veículos também seguem esta economia. Talvez escritores e roteiristas do começo da década de 1970 não imaginassem a revolução nas telecomunicações e informática que acontecereia nas décadas seguintes, em especial o salto entre o final do século XX e o início do XXI (e que permanece até hoje). Algo recorrente em muitas produções. Assim, não há nada que lembre minimamente um PC, celular, Notebook, Ipod, Smart Phones e Tablets. Se a criatividade humana não alçava grandes voos ou é uma opção estética, fica em aberto a questão.

Acredito que esta “pobreza” tecnológica seja intencional em Soylent Green, pois há um enorme abismo entre as classes. Não nos é mostrado muito do modo de vida dos poderosos, onde deve existir maior refinamento.

Quiçá a brutalidade e precariedade da vida em 2022 tenha atrofiado a inventividade dos cientistas e técnicos do futuro, onde questões básicas de sobrevivência sejam mais preementes do que o saber mais desinteressado e a ciência aplicada em campos menos imediatos.

O filme é uma adaptação, bastante livre segundo os críticos, de um romance de Harry Harrison, chamado Make Room! Make Room!(de 1966). No livro há uma exploração maior do tema do crescimento populacional. O roteiro do fime salienta mais a crise alimentar e a questão do suicídio assistido, além do direcionamento policial da trama. Não li o romance, embora exista tradução em português de Portugal, com o título de À beira do fim (nome que o filme recebeu em terras lusitanas), pelo Editorial Caminho. Analisando o filme em si mesmo, pareceu-me um roteiro bem construído.

Charlton Heston, em ótima forma e grande carisma, compõe um Robert Thorn cínico e humano (quando necessário). Com o fim dos grandes épicos, o ator protagonizou alguns clássicos da ficção científica de teor mais apocalítico e com grande carga de crítica social (em especial o pacifismo e a questão ambiental), como o Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, 1968,Franklin Schaffner) e A Última Esperança da Terra (The Omega Man, 1971, de Boris Sagal). A direção de Richard Fleischer (1916-2006) é bastante segura e o filme não merece reparo algum. Grande representante do cinema de gênero, o artesão Fleischer mereceria maior destaque e reconhecimento. Longe de ser um “autor”, proporcionou grandes momentos na história do cinema. Seu trabalho anterior foi um ótimo drama policial, Os Novos Centuriões (The New Centurions, de 1971). Talvez o asfalto violento da Los Angeles deste filme tenha servido como balão ensaio para o clima desesperançado da distopia de Soylent Green.

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