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Eternos (2021) – Crítica

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Eternals (Eternos) é um filme estadunidense de super-herói baseado na equipe de mesmo nome da editora Marvel Comics. Produzido pelo Marvel Studios e distribuído pela Walt Disney Studios Motion Pictures, é o vigésimo sexto filme do Universo Cinematográfico Marvel (UCM). O filme é dirigido por Chloé Zhao, que escreveu o roteiro com Patrick Burleigh, Ryan Firpo e Matthew K. Firpo. É estrelado por um ensemble cast que inclui Gemma Chan, Richard Madden, Kumail Nanjiani, Lia McHugh, Brian Tyree Henry, Lauren Ridloff, Barry Keoghan, Don Lee, Harish Patel, Kit Harington, Salma Hayek e Angelina Jolie. No filme, os Eternos, uma raça alienígena imortal, emergem do anonimato depois de milhares de anos para proteger a Terra de suas contrapartes do mal, os Deviantes.

 

Em 5000 A.C., dez Eternos com aparência humana do planeta Olympia são equipados com superpoderes e enviados pelo Celestial Arishem para a Terra, onde devem lutar contra os invasores Deviantes. Ao longo dos milênios, eles protegem a humanidade dos perigos representados por essas criaturas, mas não podem interferir no desenvolvimento da população mundial. Depois que os supostos últimos Deviantes são mortos em 1500, há uma ruptura dentro do grupo, já que as opiniões divergem sobre sua responsabilidade para com a população. Eles passam os próximos quinhentos anos separados um do outro, esperando que Arishem os envie de volta ao seu planeta natal.

Atualmente, Sersi e Duende moram juntas em Londres. Após Sersi ser deixada por seu parceiro Ikaris, depois de quinhentos anos, ela agora tem um relacionamento com Dane Whitman, que trabalha no Museu de História Natural. Quando o trio é atacado pelo Deviant Kro uma noite, Ikaris aparece e espanta o monstro. Percebendo que os Deviantes voltaram, eles se preparam para reunir os Eternos restantes. Eles viajam para Dakota do Sul e descobrem que sua líder, Ajak, foi morta por um Deviante.

Sersi descobre que Ajak deu a ela a habilidade de se comunicar com Arishem, que revela que a missão dos Eternos não era lutar contra os Deviants, mas preparar a Terra para “O Despertar”. Arishem explica que por milhões de anos, os Celestiais têm plantado suas sementes em planetas povoados para que um novo Celestial possa nascer. Os Celestiais enviaram os Deviantes para destruir os predadores do planeta para garantir o desenvolvimento da vida, mas os Deviantes evoluíram e caçaram as populações do planeta, resultando na chegada dos Eternos para abatê-los. Arishem explica que a Terra atingiu a população necessária para o nascimento do Celestial Tiamut, que resultará na destruição do planeta.

Tendo aprendido a amar a humanidade, os Eternos se reagrupam e decidem evitar o Despertar. Eles se reencontram com Kingo, Thena e Gilgamesh na Austrália antes de irem para a residência de Druig na floresta amazônica, onde são atacados por Kro e os Deviantes. Kro mata e se alimenta de Gilgamesh, ganhando uma forma totalmente humanóide e habilidade de falar, antes de fugir. Depois de cremar Gilgamesh, eles visitam Phastos, que propõe a Druig fazer Tiamut dormir usando seus poderes de controle da mente amplificados pela Uni-Mente, uma conexão entre todos os Eternos. Ikaris revela que foi informado sobre o Despertar por Ajak séculos antes, ele a traiu, matando-a quando Ajak decidiu impedir o Despertar seis dias antes, ele foge junto com Duende determinado a permitir que Tiamut nasça. Kingo também deixa o grupo, pois não acha certo impedir o nascimento de um Celestial, mas ele também não quer lutar contra sua família.

Depois que Makkari localiza o local do despertar no pé de um vulcão ativo no Oceano Índico, os Eternos batalham contra Ikaris e Duende. Kro, que quer vingança contra os Eternos, também entra no meio do conflito. Thena luta e o mata. Druig nocauteia Duende e eles trabalham juntos para subjugar Ikaris. Phastos ativa a Uni-Mente, à qual Ikaris se junta por causa de seu amor por Sersi. Druig não consegue parar Tiamut, então Sersi, que manipula matéria, transforma Tiamut em mármore. Atormentado por sentimentos de culpa, Ikaris voa em direção ao sol. Sersi explica a Phastos que até mesmo Tiamut juntou-se durante a Uni-Mente, ela ainda tem um pouco de poder da Uni-Mente e com a permissão de Duende a transforma em humana.

A equipe se separa, com Thena, Druig e Makkari voando para o espaço em sua nave Domo para encontrar outros Eternos e contar toda a verdade sobre o plano de Arishem. Sersi, Phastos, Kingo e Duende ficam na Terra. Enquanto Dane confessa seu amor por Sersi e está prestes a revelar um segredo sobre sua complicada história familiar, ela, junto com Phastos e Kingo, são abduzidos para o espaço por Arishem, que está descontente por terem escolhido sacrificar um Celestial pelas pessoas do planeta, mas opta por poupá-los se suas memórias mostrarem que eles são dignos de viver. Ele jura voltar para julgamento.

Em uma cena no meio dos créditos, Thena, Makkari e Druig são visitados pelo Eterno Eros / Starfox, irmão de Thanos, e seu assistente Pip, que oferecem ajuda. Em uma cena pós-créditos, Whitman abre um baú antigo herdado de seus ancestrais que contém a lendária Espada de Ébano, enquanto uma voz fora da tela pergunta se ele está pronto para isso.

Aliás, deixar um parágrafo sobre a direção dos personagens, em muitos são muito boas e conseguem fazer uma atuação digna, embora alguns oscile mais que outros (caso do Ikaris em vários momentos) outros brilham, como Kingo e seu perspicaz humor, Phastos e sua inteligência e ironia, Sprite sendo a rebelde, Makkari roubando cena em que aparece, e Dane Whitman, sim eu gostei do Kit Harington aqui, por incrível que pareça, ele atuou (Aleluia?) por mais que ainda tenha maneirismos de sempre, sua relação com Sersi é bem legal e melhor apresentada que a da mesma com Ikaris, outro ponto a destacar é a relação da Thena com Gilgamesh, ambos estão maravilhosos, e juntos são ainda mais, embora tenha poucas cenas que desenvolva esta parte.

Neste momento, com impressionantes 26 filmes do Universo Cinematográfico Marvel – UCM lançados desde 2008, Eternos é o único que eu verdadeiramente não gostei e que classifico como ruim. Existem outros fracos, claro, mas o longa de Chloé Zhao, diretora indie que ganhou particular e merecido renome depois de amealhar os Oscars de Melhor Filme e Direção com seu Nomadland em momento posterior à sua contratação pela Marvel Studios, é uma obra que não sabe muito bem o que quer ser e não consegue decolar de verdade em momento algum. E isso não é apenas culpa dela, claro, até porque o filme tem seus méritos que, junto com os problemas, serão abordados ao longo da presente crítica.

Apesar de pessoalmente nunca ter ligado para esses personagens – e, antes que me perguntem, sim, li todas as HQs solo deles – tinha certeza de que a incursão do estúdio por mais esse caminho seria uma empreitada de muita qualidade como foi o caso dos Guardiões da Galáxia, grupo composto de personagens então completamente desconhecidos até mesmo de leitores de quadrinhos, mas que me levou a um dos maiores momentos de incredulidade nerd, pois eu acompanhava as publicações deles durante a incrível fase noventista de Jim Valentino quando a produção foi anunciada. Infelizmente, porém, não ocorreu o mesmo com os Eternos.

Jack Kirby criou os Eternos e os Celestiais como parte de seu pacote de considerável liberdade criativa prometida pela Marvel Comics em 1976 como forma de atrai-lo novamente para a editora. Tendo criado o Quarto Mundo para a DC Comics nos anos imediatamente anteriores, o grande artista inspirou-se neste seu universo e misturou-o com o conceito por trás do famoso livro do suíço Erich Von Däniken, Eram os Deuses Astronautas? (Chariots of the Gods?), publicado em 1968, em que ele postulava que basicamente já fomos visitados por extraterrestres que conviveram com os humanos de tempos imemorais e cuja leitura recomendo nem que seja pela pura diversão em ver o autor apressadamente concluir que tudo que não tem uma explicação óbvia imediata só pode vir de tecnologia alienígena.

Kirby procurou responder à pergunta colocada por Däniken inventando que os gigantescos e antiquíssimos Celestiais – basicamente os próprios deuses astronautas – fizeram experiências na Terra resultando não só na evolução da raça humana, mas também na criação de duas outras, os Deviantes, de aspecto monstruoso e com intenções destrutivas e os Eternos, equivalentes aos deuses gregos, imortais, belos, poderosos e com o objetivo de proteger os humanos da ameaça de seus irmãos menos privilegiados. A série original de Kirby, de qualidade duvidosa já que ele basicamente pega seus conceitos e reduz à pancadaria padrão entre mocinhos e vilões, durou apenas doze edições, com o fechamento de linhas narrativas acontecendo posteriormente, em publicações mais mainstream da Marvel. Ao longo das décadas, apesar de não muito frequentemente, os Eternos ressurgiram e foram retrabalhados, sofrendo os inevitáveis retcons e sendo costurados de maneira mais constante ao Universo Marvel, com os Celestiais até ganhando mais destaque que suas criações.

No longa, o roteiro que Zhao escreveu juntamente com Patrick Burleigh (em seu segundo roteiro de longa-metragem), Ryan Firpo e Kaz Firpo (estes estreando em longas), mantém o conceito geral de deuses astronautas de Kirby a partir de Däniken, mas alterando os detalhes. No lugar de os Eternos e Deviantes terem sido criados a partir de experimentos na Terra, eles na verdade são raças criadas pelo Celestiais, os Deviantes sendo um projeto falho que evoluiu e passou a eliminar vidas nos planetas a que foram enviados e os Eternos sendo uma resposta ao problema, com o grupo de 10 que protagoniza o longa sendo os guardiões do planeta até que eles descobrem que, na verdade, eles nada mais são do que androides incapazes de evoluir com a função de deixar os planetas em condições ideias para que novos Celestiais possam nascer de seu interior, destruindo tudo no processo.

Todas as mudanças funcionam bem para mim, mas o fato de os Eternos serem androides me causa espécie, já que não vejo muito sentido prático androides serem monolíticos e inadaptáveis. Basta ver o exemplo de Makkari (Lauren Ridloff), a Eterna surda que tem super velocidade como poder. Entendo criar androides que possam emular a surdez de maneira que eles consigam se adaptar com mais naturalidade à população da Terra com essa característica, mas daí a ela ser realmente surda a ponto de ter que se comunicar com seus pares com linguagem de sinais me parece uma concepção no mínimo estranha. Mas, além disso, há que se considerar que, se é possível determinado Eterno ter determinado poder, porque não é possível que todos tenham todos os poderes de forma a evitar discrepâncias evidentes como acontece entre Ikaris (Richard Madden), basicamente o Superman da Marvel – só que bem mais fraco – em uma homenagem sem dúvida muito bacana e, por exemplo, Kingo (Kumail Nanjiani), cujo poder é, basicamente, fazer ineficientes “piu, piu, piu” com as mãos em forma de arma.

O filme é apresentado com uma trama contada de forma não linear, que viaja entre o cenário atual e o passado, que se faz por necessário e não é feito de uma forma cansativa, nos explicando por que eles se separaram e não foi por que eles simplesmente quiseram abandonar o progresso da humanidade, tem um contexto, existe um pensamento de cada eterno ali, sobre o que fazem e o que estão realmente destinados a fazer. A trama principal é bem direcionada e se entrelaça com arcos de personagens presentes e que são importantes para o desfecho final, que visa impedir que o Celestial adormecido no núcleo da Terra acorde, usando a vida terrestre para se sacrificar em nome de mais um Celestial, mas claro, muitos da equipe vão discordar, outros vão seguir cegamente a ordem dos seus criadores.

Se os Eternos fossem seres orgânicos, mesmo que criados em laboratório, as diferenças entre eles seriam também mais orgânicas dentro da história. E isso porque eu nem mesmo abordarei aqui a implicação de que, se Eros (Harry Styles na cena de meio de crédito) é um Eterno e, portanto, um androide, seu irmão, Thanos, também deveria ser, ainda que, claro, tenho certeza que inventarão alguma saída para isso quando necessário, até mesmo retconando tudo o que vimos e esclarecendo que, na verdade, os Eternos são orgânicos mesmo e que tudo não passou de uma mentira de Arishem.

Tenho sérios problemas com o uso pejorativo da expressão “Fórmula Marvel”. E minha principal razão para isso é que por vezes parece que ter fórmula é algo inerentemente ruim e, pior ainda, que somente a Marvel Studios tem fórmula e que essa fórmula é exclusiva dela. Desculpem-me, mas, em primeiro lugar, sem uma estrutura minimamente rígida, não haveria a menor possibilidade de se criar o UCM ou qualquer universo compartilhado nesta magnitude. A prova disso é a Distinta Concorrência que não demonstra coesão e, ao tentar criar seu universo compartilhado, acabou saindo pela tangente e fazendo uma série de filmes essencialmente desconectados.

Sim, existem alguns problemas em “Eternos”, como efeitos digitais que não impressionam, alguns braços da história que não são tão interessantes assim, personagens secundários que não despertam nenhum sentimento, um semi-vilão mal explorado e, principalmente, uma sensação de que aquela história não se passa no universo de filmes da Marvel, mesmo que em vários momentos os personagens e situações da franquia sejam citados (e pasmem, alguns outros da DC Comics).

Além disso, não se trata de Fórmula Marvel, pois essa expressão parece “negar” as outras fórmulas todas das mais diversas mega-franquias (ou alguém aqui vai me dizer que o Zack Snyder não tinha uma fórmula para a DC?), mas sim, mais apropriadamente, Fórmula Blockbuster. A única diferença é que, como há uma interligação mais forte entre todos os longas do que a mera estrutura de continuação, bem mais normal, claro, é necessário ir alguns passos além para garantir a estabilidade do todo.

Levanto esse ponto porque, apesar de alguns diretores terem historicamente conseguido fazer a transição entre seu estilo autoral próprio, necessariamente mais livre e constantemente mais interessante, como é o caso, por exemplo de Sam Raimi, o mesmo não parece ter acontecido com Zhao. Mas que fique bem claro que cruzar a ponte entre orçamentos de trocados sem escrutínio de estúdio e orçamentos dignos de xeiques árabes que vem com ingerência embutida como pré-requisito, é uma tarefa dificílima e Zhao tinha ainda como desvantagem o fato de não estar adaptando personagens conhecidos e ter que basicamente introduzir tudo do zero, quase que como um filme completamente independente da linha narrativa principal. Uma coisa não tem como negar: a diretor definitivamente arregaçou as mangas em seu trabalho, resultando em um filme que carrega os traços contemplativos de sua filmografia, mas que, ao mesmo tempo, não foge tanto assim do caminho geral da Fórmula Blockbuster.

Mesmo assim, o longa deve ser louvado por não levar a cabo toda a cartilha do gênero de super heróis, tornando-se assim um experimento para produções futuras… Se a bilheteria permitir, é claro.

O que acaba acontecendo, portanto, é um meio-termo incômodo em que Zhao se viu forçada, de forma a trabalhar 10 Eternos e mais alguns agregados como o Dane Whitman de Kit “Não Sabe Nada” Harington, o futuro Cavaleiro Negro, obviamente um apêndice exigido pela Marvel, a seguir uma estrutura muito distante do que estava acostumada e que se assemelha ao padrão da indústria de introdução de personagens, ou seja, o bom e velho derramamento de textos expositivos. Tudo aquilo que Zhao sempre trabalho em seus filmes de maneira subjetiva e discreta é defenestrado e, no lugar, temos o roteiro pegando na mão dos espectadores para não deixar absolutamente nada com qualquer nesga de dúvida, chegando até ao ponto de os diálogos fazerem questão absoluta de conectarem Ikaris com a lenda grega de Ícaro de forma que todo mundo tenha alguma chance de lembrar o “simbolismo” forçadíssimo que é ele voando em direção ao sol ao final ou que Gilgamesh (Don Lee) seja “mitologizado” in loco na Mesopotâmia com os contos ilustrados pelas ilusões da Duende (Lia McHugh).

Quase todos os personagens principais ganham uma história pregressa que é trabalhada na forma de flashbacks para momentos-chave em suas vidas, mas que sacrificam completamente a fluidez narrativa, por vezes até se tornando inadvertidamente engraçados quando, por exemplo, alguém diz que Phastos (Brian Tyree Henry) perdeu a esperança na humanidade, somente para que haja um corte brusco em que vemos Phastos em Hiroshima, em 1945, perdendo a esperança na humanidade. É como um personagem dizer, em uma conversa pitoresca, que gosta de usar gravatas borboletas e, no momento seguinte, ele passar por uma loja de gravatas borboletas e ainda dizer “olha lá uma loja de gravatas-borboletas”. E olhem que o exemplo de Phastos é até o menos problemático, por ser um flashback rápido, sem enrolação que levanta uma questão interessantíssima – que a guerra é necessária para o desenvolvimento tecnológico -, só que sem desenvolve-la de verdade, como, aliás, é o padrão do roteiro aqui.

Seja como for, há outros flashbacks mastigadores muito mais longos e repletos de efeitos em computação gráfica que parecem fazer questão de dizer que são computação gráfica (aquela Babilônia limpinha, sem nenhuma impressão de “espaço vivido” chega a ser hilária) que parecem acrescentar camadas ao longa e que parecem criar complexidade para a história sendo contada quando, na verdade, no agregado, pouco realmente trazem de novidade para uma história que, me desculpem, tem a mesma complexidade que encaixar duas peças de Lego idênticas. E o pior de tudo é que todo esse esforço, que consome um enorme pedaço do filme, não contribui em nada para tornar os personagens mais identificáveis, mais relacionáveis, já que eles acabam basicamente sendo fungíveis, talvez com o drama de Thena (Angelina Jolie) sendo o mais interessante, mas mesmo assim se perdendo quando as cartas são embaralhadas.

Mas havia um meio-termo que Zhao poderia ter alcançado, já que tudo o que é realmente importante é explicado no letreiro do início e quando Sersi (Gemma Chan basicamente repetindo seu papel de androide sem expressão de Humans) descobre a verdade depois da morte de Ajak (Salma Hayek), a líder do grupo. Tudo o que está entre uma coisa e outra e para além da descoberta é, em gigantesca parte, uma tentativa de se criar mais do que uma dimensão para os Eternos da Terra, algo que não é alcançado pela escolha de se dar atenção a quase todos eles em uma sucessão interminável de recrutamentos com flashbacks, no lugar de o roteiro focar em apenas uns dois ou três. E o mais irônico é que os roteiristas, ao fazerem de tudo para abordar todos os 10 personagens, acabam tornando a exclusão de Makkari desse processo ainda mais saliente.

E a exclusão de Makkari de qualquer acontecimento pregresso relevante, relegando-a a habitante da nave dos Eternos por alguns séculos, me leva ao ponto da representatividade, importante “elemento de venda” do longa-metragem e que parece ter impressionado muita gente. Se existia um grupo de super-heróis que mais naturalmente era afeito a ser representativo da população da Terra, eu não sei, pois Eternos é a concepção perfeita para isso e as escalações funcionam para mostrar essa diversidade, ainda que fira a lógica em alguns casos (como já mencionei mais acima), em razão de eles serem androides.

Portanto, a composição do grupo em si é boa e natural. O problema está em como a representatividade é usada, já que ela, aqui, existe apenas no piloto automático, sem algo que a destaque quando precisa destacar – e não, um beijo entre dois homens não quebra barreiras, ainda que seja um começo – ou que faça parte da identidade do grupo de personagens. Veja, eu mesmo já disse algumas vezes que a melhor forma de representatividade é a natural, é a que não precisa ser usada em campanhas de marketing, mas nós ainda não chegamos nesse ponto e o que Zhao faz em Eternos é deixar a diversidade de lado juntamente com a caracterização de seus personagens. A fungibilidade que salientei antes aplica-se aqui também, infelizmente.

Sim, acho ótimo que o traidor seja o branco britânico, o que subverte as expectativas, mas tenho problemas com uma abordagem que enxergo, em pelo menos dois casos, como caricata, partindo de estereótipos que deveriam ser justamente expurgados no nascedouro. Vejam o caso de Kingo, vivido por ator de origem indiana. O que ele faz? Aparentemente a única coisa que um indiano de sucesso poderia fazer na Índia: ser ator de Bollywood. Reitera-se aquela “única” informação sobre o populoso país que todo mundo, de uma forma ou de outra, já sabe e espera quando se fala em “personagem indiano” de filmes hollywoodianos. Com isso, apaga-se a presença internacional do país em conglomerados automobilísticos, em empresas de alta tecnologia, em redes hoteleiras e de transporte de massa, todas essas características perfeitas para serem usadas em Kingo que, no frigir dos ovos, acaba sendo um ator afetado que atua o filme todo como se estivesse atuando em um de seus filmes dentro do filme. Só faltou mostrá-lo comendo curry. Outro caso saliente é o de Phastos, cuja família aparece menos do que o mordomo de Kingo, e é o único personagem que leva um susto e dá um gritinho histérico típico da forma como os homossexuais eram invariavelmente retratados no passado não tão longínquo. São detalhes? Talvez, mas para uma obra que tem em sua infraestrutura narrativa a diversidade e a representatividade, isso não deveria ocorrer. E, é claro, há Makkari que literalmente entra muda e sai calada por não ter passado, não ter sequer presente, com sua função ficando limitada a correr até o epicentro do nascimento do “bebê Celestial”. A Marvel acertou tão em cheio em Pantera Negra e Shang-Chi, que talvez tenha se sentido segura demais aqui, perdendo, no processo, o controle sobre algo tão importante.

Seja qual for o resultado da bilheteria do longa, tenho poucas dúvidas que os Eternos voltarão seja em uma continuação direta, seja em uma rearrumação de tabuleiro. Não que eles sejam necessários para as tramas que ocorrem no planeta Terra, mas sim porque eles escancaram ainda mais a porta cósmica do UCM, o que é sempre um caminho interessante de se seguir. Considerando a forma como a história acaba, com um grupo de Eternos saindo pelo espaço para procurar seus pares e contar a verdade sobre os Celestiais e esbarrando em ninguém menos do que Eros (o já citado irmão de Thanos que também é um cantor pop por aqui) e Pip, o Troll (Patton Oswalt em seu terceiro personagem na Marvel – na verdade quinto se contarmos a série de Operação Big Hero e a série animada do Homem-Aranha de 2017!), personagem normalmente conectado com o prometido Adam Warlock, há muita coisa a ser vista ainda nesse canto pouco explorado do UCM.

Se existe algo que é quase impresso na película de “Eternos” é a assinatura da diretora Chloé Zhao (vencedora do Oscar por “Nomadland”). Aqui ela traz para o cinema blockbuster um frescor e atmosfera poucas vezes exploradas em grandes franquias, mas muito utilizada em dramas e produções independentes, onde não é necessário se adequar às reações de sessões prévias para o público, e o nome do cineasta quase sempre supera o da produção. A diretora impõe seu característico ritmo cadenciado para contar a história, não acelerando momentos de intimidade entre os personagens, ao mesmo tempo em que explora as paisagens grandiosas de locações que situam o filme. Algo ainda mais bonito ao ser acompanhado pela trilha sonora épica de Ramin Djawadi (“Game of Thrones”), que não irrompe o que se vê na tela e mistura-se organicamente com o visual soberbo.

E o mesmo vale para os Eternos – Sersi, especialmente – que são “içados” por Arishem que demonstra seu descontentamento, mas os poupa e poupa a Terra de forma que ele possa passar julgamento com base nos HDs de suas criações sobre a Humanidade. Esse é um fio narrativo bem específico, diria, que normalmente exigiria um tratamento dedicado de uma continuação para ser abordado a contento, mas não tenho muito o que desconfiar da capacidade da Marvel Studios em trabalhar seu cada vez mais vasto universo de maneiras inesperadas, ainda que sempre dentro de seu planejamento rígido, mas inegavelmente vitorioso.

Excelente, o filme é sim bem diferente vamos dizer dos demais da Marvel, embora eu sempre repúdio quem fica falando de uma existente “Fórmula Marvel”, ele segue rumos que normalmente vai irritar uma parte de fãs e agradar outras, ele tem um ritmo bom que você não sente em momento algum ser uma obra arrastada ou rápida demais, tem erros, mas na minha opinião, os méritos são maiores, recomendo ficar para as cenas pós créditos, são essenciais para uma possível continuação e com certeza o filme cria lacunas para explorar tudo isso em outros projetos, trazendo consequências para o MCU.

No longa, acompanhamos um grupo de dez seres superpoderosos que vieram para a Terra em uma missão específica, dadas pelo ser Celestial Arishem: acabar com a ameaça dos monstros Deviantes e, no processo, ajudar a humanidade a evoluir sem se envolver em seus conflitos. Eles chegam ao mundo nos primórdios da civilização humana e, com o passar do tempo, se embrenham na cultura do planeta, apegando-se e se misturando aos seus protegidos. A questão mais relevante do filme é a de que o tempo e o propósito são os articuladores de nossas personalidades, não à toa o longa se inicia ao som de Time, canção clássica da banda Pink Floyd. Por último, claro, há aquela cena pós-créditos marota envolvendo Dane Whitman e a mítica – mas perigosa – Espada de Ébano, o que o coloca a poucos passos de se transformar no Cavaleiro Negro que parece completamente desconexa do restante do filme, e de fato é, mas cumpre sua função de abrir espaço para o personagem que, pelo visto, terá relevância no futuro imediato do UCM, potencialmente conectado com o vindouro longa de Blade.

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