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Eles Vivem (1988) – Crítica

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 They Live (Eles Vivem) é um filme americano de ficção científica de ação, suspense e terror de 1988, escrito e dirigido por John Carpenter. O protagonista do filme é interpretado pelo antigo wrestler e ator canadense Roddy Piper junto com os atores americanos Keith David e Meg Foster. Ele segue um vagabundo sem nome (“John Nada”) que descobre que a classe dominante é de um grupo de alienígenas escondendo sua aparência e manipulando as pessoas para gastar dinheiro, criar e aceitar o status quo com mensagens subliminares nos meios de comunicação.

John Nada (Roddy Piper) é um trabalhador braçal que sai do interior de Colorado e chega a Los Angeles e encontra trabalho num edifício em construção. Durante uma inusitada operação repressiva, a polícia destroi um quarteirão inteiro do bairro miserável em que vive. Na confusão Nada encontra óculos escuros aparentemente comuns, porém ao usá-los consegue enxergar horrendas criaturas alienígenas disfarçadas de seres humanos, bem como as mensagens subliminares que elas transmitem através da mídia em geral. Nada percebe que os invasores já estão controlando o planeta e, juntamente com seu companheiro de trabalho Frank (Keith David), decide se engajar no movimento de resistência, que é perseguido como subversivo pela polícia.

 

Há, ainda na introdução de Eles Vivem, uma cena na qual o protagonista, John Nada, passa por uma loja cuja vitrine expõe uma televisão. Na tela, vemos um comercial que precede o jornal local. Do lado de fora da loja, um rapaz assiste à televisão, com uma feição que denota uma certa hipnose. Já na tevê, uma sequência interessante de imagens é exibida: o monte Rushmore, monumento em Keystone que homenageia George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln, alguns dos homens que definiram a América como conhecemos hoje; uma águia voando pelos céus, outro símbolo que exala patriotismo, mas que também representa a vigilância – a ave voa e observa a sociedade assim como os helicópteros do filme; um caubói em cima de um cavalo, que reverencia a cultura faroeste do típico herói americano; e um grupo de rapazes jogando basquete, que é a manutenção do lazer como ferramenta de controle e monitoramento comportamental e social.

Carpenter, portanto, escolheu símbolos que, ao mesmo tempo, martelam o patriotismo e o controle estatal exercido pela América daquele período – para contextualização: o filme foi lançado na era Reagan, quando o autoritarismo de seu governo e de sua guerra às drogas resultaram em inúmeros eventos de violência policial –, como também evoca elementos da construção mitológica da nação  e de ícones da cultura do país que servem como ferramenta de alienação.

Com uma introdução que define as ideias que sustentam a obra, Carpenter então parte para o desenvolvimento dramático de seu filme. Acompanhamos John Nada, um trabalhador que troca o interior do Colorado pela cidade grande em busca de emprego. Como o quadro de vagas vazio deixa óbvio, não há opções. Resta ao personagem, então, ir morar e trabalhar numa área marginalizada da cidade, onde minorias como negros e latinos tentam sobreviver.

O fato de Nada acabar trabalhando num campo de obras já imprime enorme carga política à obra. Note, na imagem abaixo, como vemos apenas alicerces de prédios no ambiente. É um plano que muito diz sobre a visão do filme: mesmo que sejam relegados aos guetos, aqueles personagens são a base da sociedade, enquanto as classes mais poderosas usufruem da vida que os trabalhadores a eles proporcionam.

Na trama, tudo ia bem até que Nada encontra uma caixa de óculos escuros um tanto quanto peculiar. Ao usar os óculos, Nada passa a enxergar o mundo sem “maquiagem”. Propagandas com corpos femininos esculturais se tornam mensagens de “case e reproduza”, outdoors que anunciam computadores de última geração cedem lugar a mensagens que exigem “obediência”, e por aí vai. O mais estranho, porém, é notar que algumas pessoas, quando vistas através das lentes dos mágicos óculos, aparentam ser alienígenas. E o pior: eles querem dominar o mundo.

Carpenter faz diversas escolhas estéticas que são extremamente precisas para o desenvolvimento de sua crítica sociopolítica. Quando Nada tenta convencer um colega, Frank, de que o mundo é uma farsa e pede para este colocar os óculos, há uma estranha e enfadonha luta entre os dois, que apesar de visualmente desinteressante – e enorme! –, serve para explicitar o quão resistente é a ideia de que a sociedade deve manter seus padrões, mesmo que estes mascarem um sistema desigual. Frank resiste até não poder mais à ideia de que deve usar os óculos – que nada mais são se não uma metáfora para “abrir os olhos”.

Ainda sobre a ação, outro acerto é a forma como Carpenter conduz e monta as cenas de tiro. Lançado em 1988, Eles Vivem veio no auge do cinema de ação, e compartilha a década com obras como Rambo, O Exterminador do Futuro, Predador, Duro de Matar, Máquina Mortífera, Comando Para Matar e muitos outros longas adorados. O filme, inclusive, tem um protagonista que muito se encaixa no estereótipo do gênero: é um típico americano loiro, alto e forte. No filme de Carpenter, porém, a violência e os tiros são sempre um meio para uma alegoria política. Não há nunca um foco nos combates ou violência, mas nos sentimentos dos personagens que protagonizam essas cenas. Isso reflete diretamente na montagem, que resolve tiroteios, muitas vezes, em planos curtíssimos e bem cortados, que mostram o inimigo vivo, a arma disparando, e o inimigo morto.

Com uma premissa dessas, não é surpresa alguma constatar que Eles Vivem é a produção mais louca da carreira de John Carpenter, superando até mesmo o humor (pastelão) de Dark Star. O roteiro possui um senso de humor aflorado, dosando cenas absurdas (como o momento em que os dois personagens principais brigam loucamente no meio de um beco porque um deles se recusava a colocar o óculos no rosto, enquanto o outro insistia bravamente) com diversas citações hilárias (“I have come here to chew bubblegum and kick ass… and i’m out of bubblegum”, na tradução: “eu vim aqui para chutar mascar chicletes e chutar traseiros… e estou sem chicletes”). Se não é o melhor trabalho da carreira do cineasta, pelo menos se garante como um dos mais divertidos.

Interessante também é o fato de as cenas que trazem confrontos policiais serem sempre acompanhadas por fumaças e luzes vermelhas, o que implica em vários efeitos narrativos. O vermelho, por si só, é uma cor que evoca perigo e violência, permitindo que Eles Vivem atribua às forças estatais um caráter repressor não só por suas atitudes destrutivas, mas por sua própria apresentação visual.

Capaz de tecer inúmeros comentários sociais e políticos sem nunca esquecer da parte estética, Eles Vivem é uma prova não só da visão crítica de seu diretor, mas também de sua capacidade de esculpir a forma cinematográfica em prol dessa crítica. É uma trama que, a cada quadro, traz consigo uma ácida visão do mundo capitalista, mas também um sutil e admirável traço do esmero técnico empregado na narrativa.

Como é de se esperar de qualquer obra com a assinatura de Carpenter, a trilha sonora chama a atenção. Desta vez ela é repetida à exaustão, como se fosse uma tentativa de exaltar as técnicas de manipulação de massa utilizadas na própria história. Chega a ser chato ouvir o tema repetidas vezes e sem muita variação, mas ainda assim se trata de um flerte com o jazz muito interessante, embora seja extremamente simples.

O diálogo pleno entre forma e conteúdo, portanto, permite que Eles Vivem seja tão ácido quanto anárquico. Temos uma obra que não se contenta simplesmente em criticar um modelo de sociedade, mas que também apresenta a desobediência civil e a revolução como um ato heróico, como a única reação possível. Enquanto boa parte dos heróis dos anos 80 tinham como missão a proteção da sociedade ocidental e a manutenção do status quo, o heroísmo de John Nada reside justamente em sua rebeldia e enfrentamento do establishment.

E se enxergarmos os óculos escuros do filme como uma alegoria para a própria obra – afinal, se os óculos abrem os olhos dos personagens, Eles Vivem também também pode abrir os olhos de um espectador alienado –, não é loucura imaginar que Carpenter fez de seu filme, além de uma sátira, uma manifestação de seu desejo por uma necessária transformação.

A resistência tem claro que a manutenção do sistema depende da difusão incessante da ideologia e manipulação através dos meios de comunicação (neste caso a Cable 54) e então decide atacá-los. Quando John Nada destrói a antena que simboliza a propagação da ideologia, a classe trabalhadora consegue então ver a realidade com os próprios olhos e pela primeira vez perceber que estes são diferentes.

Uma lição clara deste filme é que é a televisão — o jornalismo, a propaganda — é o principal sustentáculo do sistema e isto anda muito perto da verdade. No dia em que haja jornalismo sério e meios de difusão de ideologia nas mãos de quem está pela verdade, pelo fim de uma sociedade de classes e da explotação do homem pelo homem e o sistema cai estrondosamente. O problema é que isso não acontecerá a não ser através de uma revolução. Até lá é preciso encarar os jornalistas e os principais meios de difusão de ideologia como um dos principais inimigos da classe trabalhadora. Impressionante como em tão pouco tempo — cerca de hora e meia — em forma de um filme de entretenimento, se pode aprender tanto em relação à nossa sociedade. John Carpenter disse um dia que o filme não era ficção científica, mas sim um documentário sobre a realidade.

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