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Dredd: O Juiz do Apocalipse (2012) – Crítica

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Dredd: O Juiz do Apocalipse consegue ser não só uma adaptação efetiva de um personagem complicado dos quadrinhos, como também um ótimo filme de ação com uma alegoria dos tempos atuais que, certamente, terá um apelo catártico no público das cidades mais assoladas pela criminalidade. Após a frustrada primeira versão cinematográfica deste personagem dos quadrinhos, era de se esperar que Dredd não tivesse mais chances na telona. Sorte a nossa que não. Dirigido por Pete Travis e com Karl Urban como o juiz, esse reboot nos oferece tudo aquilo que o filme de 1995 com o Stallone jamais conseguiu: ação de qualidade, violência e 90 minutos de puro entretenimento.Esqueça a primeira versão de Dredd, aquela com Sylvester Stallone, de 1995, e conheça o poder empolgante da justiça em uma nova versão cinematográfica. “Dredd – O juiz do apocalipse” não se trata de uma refilmagem e muito menos de uma continuação, pelo contrário, é um filme que surge para ‘apagar’ seu antecessor e retratar o personagem da maneira que merece com violência e fidelidade à HQ. No cinema, com o realismo proporcionado pelas câmeras e exacerbado pelo 3D, a violência pela violência torna o espectador quase um personagem da ação. Pode até ser diversão, mas é incômoda.

Como a produção dos anos 90 não agradou tanto aos fãs em relação à narrativa (e também por outros motivos de caracterização), a aposta do novo Dredd foi em uma estória mais simples, objetiva e sem lengalenga. Além disso, a trama valoriza a violência estilizada dos quadrinhos e, claro, exibe um juiz mais durão e de personalidade ímpar.

Ambientado em um futuro desesperançoso, a missão de Dredd (em interpretação convincente de Karl Urban) é prender Ma-Ma (Lena Headey), uma traficante de narcóticos que está no último pavimento de um complexo de apartamentos gigantesco. O problema é que o tal prédio tem 200 andares e Dredd, com a ajuda de uma juíza novata (Lena Headey), que também é médium, deverá enfrentar os capangas de Ma-Ma que estão fortemente armados e espalhados por todo o local.

O longa possui um ritmo eficiente e a direção segura de Pete Travis (“Ponto de vista”) trabalha bem os clichês e as sequências de ação. Outros aspectos bem orquestrados por Travis é em algumas soluções visuais que deixaram o filme ainda mais atraente. É o caso das câmeras lentas que retratam o efeito da droga Slo-Mo (comercializada por Ma-Ma) e na boa utilização do 3D que enriquece a profundidade dos cenários (aparentemente parecem limitados) e espetaculariza a violência crua que espirra sangue e pequenos destroços para ‘fora da tela’.

Há quem diga que esse Dredd é um plágio do bom “Operação invasão”, que tem até uma premissa semelhante. Na verdade, a produção de Dredd se iniciou antes e o longa da Indonésia foi lançado primeiro. Ainda que ambos tenham a mesma proposta de ação, eles se diferenciam em suas entrelinhas e, claro, no apuro técnico.

Dredd termina com a sensação de ‘quero mais’ por contagiar o espectador que, certamente, refletirá sobre as ações de um ‘justiceiro legal’ que elimina a casta criminosa do mundo. Ele é um heroi que todos sonham ser ou, pelo menos, todos clamam por sua existência. Talvez, por isso, seu rosto não é revelado, o que subentende que ‘Dredds’ podem existir ou tentam existir, apenas não são percebidos ou apoiados como deveriam.

Com um preâmbulo brevíssimo que eficientemente contextualiza esse futuro em que os sobreviventes de um apocalipse nuclear se aglomeraram em megalópoles batizadas de Mega-City (One, Two, Three e assim por diante), com um sistema penal que reúne a figura do policial, do juiz e do executor em uma só pessoa, os chamados Juízes, a ação logo começa quando Dredd, o mais temido deles, vivido por Karl Urban que, diferente de Sylvester Stallone em sua adaptação galhofa de 1995, jamais tira o capacete, exatamente como nos quadrinhos, é obrigado a fazer dupla com a “estagiária de Juíza” Cassandra Anderson (Olivia Thirlby), que tem poderes psíquicos, de forma a testá-la, em um caso que começa como um “simples” assassinato, mas que acaba com os dois tendo que enfrentar uma gangue de traficantes da droga Slo-Mo liderada por Madeline “Ma-Ma” Madrigal (Lena Headey, mais má que Cersei Lannister e com rosto desfigurado com um ótimo trabalho de maquiagem) em um gigantesco conjunto habitacional, basicamente uma cidade em si mesma, que se torna uma prisão. É, para todos os efeitos, a versão sci-fi e sem artes marciais de Operação Invasão, do ano anterior, com resultado tão satisfatório quanto.

O objetivo de Dredd e Anderson é capturar ou exterminar os bandidos, de preferência sobrevivendo ao final, em uma estrutura básica em que ambos simplesmente andam pelas escadas e corredores escuros da torre. É dentro dessa simplicidade toda que Garland mostra sua criatividade no roteiro, evitando ao máximo situações repetitivas e gradativamente aumentando o grau de destruição que a gangue ensandecida controlada por Ma-Ma imprime sobre os dois juízes sem nenhum traço de preocupação pelos civis que ali vivem. Por seu turno, apesar de toda a violência vilanesca de Ma-Ma, a característica de policial, juiz, júri e executor dos protagonistas, uma belíssima sátira particularmente atual que Wagner e Ezquerra inteligentemente estabeleceram como pilar de sua criação, jamais perde foco. Muito ao contrário, Garland, em toda sua economia (fico imaginando o desequilíbrio do roteiro dele entre linhas de diálogo e descrições de ações e da ambientação), torna a sátira dos criadores dos personagens ainda mais salientes ao costurá-la na infraestrutura da história sem qualquer espaço para gracinhas, piadas ou exageros dramáticos, jogando no colo do espectador a responsabilidade de separar uma coisa da outra e entender o mote da história.

Mas não tem roteiro que funcionaria direito sem a pegada crua e visceral de Pete Travis na direção, que não se esquiva de trabalhar close-ups de Urban fazendo “meia-cara” de mau o tempo todo sem tornar tudo ridículo e as cores mudas e o uso de sombras de Anthony Dod Mantle na fotografia, além dos precisos cortes que mantém a ação funcionando, mas sem desnortear o espectador que Mark Eckersley consegue impor na montagem. É, no frigir dos ovos, uma aula magna de como fazer ação suja, violenta e tensa sem recorrer a CGI onipresente, pirotecnias estrondosas e cacoetes narrativos que tanto assolam as produções modernas em uma espécie de competição de quem consegue fazer mais cortes, escurecer mais a tela, ou trabalhar ângulos de câmera mais enlouquecidos.

O roteiro é simples e direto e é justamente por isso que tudo funciona tão bem. Embaladas por uma viciante trilha sonora eletrônica, as sequências de ação estão repletas de energia e muito sangue. Não há espaço para misericórdia aqui. Quem resolver ir contra a lei terá que se acertar com o Juiz Dredd, algo não muito recomendado. A câmera lenta garante um tom artístico para toda a violência. São cenas visualmente muito bonitas, ainda que geralmente o que é retratado não é nada agradável. É interessante notar que a utilização da câmera lenta é justificada pelo roteiro, pois ela nos mostra o que a pessoa sente após usar a droga.

Karl Urban, o eterno Éomer de Senhor dos Anéis, faz um ótimo trabalho com o que lhe é permitido. Dredd jamais tira o capacete, então o ator se expressa apenas com a voz e com movimentos da boca e só com isso consegue a empatia do público, inclusive desferindo um pouco de humor negro.

Trata-se de um filme que não tem maiores pretensões, mas que é bem eficiente no que se propõe. Ele não foi bem nas bilheterias, o que pode ser explicado em parte pela classificação indicativa de 18 anos. O fato é que estamos diante de um dos melhores filmes de ação do ano e que fica ainda melhor no cinema, pena que já está saindo de cartaz.

Urban também merece aplausos, pois não é todo ator que se dispõe a fazer papeis em que apenas sua boca aparece ao longo de toda a projeção, sem exceções. Mesmo não sendo um virtuoso de sua profissão, o ator é muito autoconsciente do tipo de papel que consegue fazer e ele se entrega ao que faz de coração, realmente convencendo o espectador de seu drama ou, como é o caso aqui, de sua infalibilidade. Em Dredd, mais do que em qualquer outro filme dele (talvez apenas com exceção de seu papel em The Boys), ele mostra que, se tivesse nascido antes, poderia ter sido um dos melhores brucutus dos anos 80. A intensidade da atuação de Urban amplificada pela direção de Travis é tanta que a presença de Thirlby como Anderson – o “rosto” dos juízes, por assim dizer – torna-se um detalhe insignificante ao ponto de ser possível concluir que, se a personagem não existisse, não faria lá muita diferença para o desenrolar da história. Pra não dizer que o filme é perfeito, fez falta uma maior ênfase à fodacidade de Dredd. Fica apenas subentendido que ele é o pica das galáxias daquela cidade. Algo sem dúvida perdoável diante de todos os méritos que a produção teve. Por isso mesmo, não deixa de ser lamentável, ainda que previsível, o péssimo desempenho na bilheteria, tanto nos EUA quanto no Brasil (o único lugar onde o filme se deu razoavelmente bem foi no Reino Unido, terra natal do personagem).

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