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Cidade das Sombras (1998) – Crítica

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 Dark City (Cidade Misteriosa ou Cidade das Sombras) é um filme realizado em co-produção por Estados Unidos e Austrália do ano de 1998, realizado por Alex Proyas.

Em uma cidade onde a noite é eterna, John Murdoch é perseguido por um inspetor de polícia, suspeito de assassinatos. Sem compreender bem a situação em que se encontra, devido à amnésia que o acomete, ele passa a buscar respostas aos enigmas de seu mundo, sendo ajudado pelo Dr. Daniel P. Schreber. Quanto mais próximo chega da incrível verdade, mais perigosa se torna sua situação pois se torna alvo de estranhas entidades com poderes extraordinários.

 

É interessante pensarmos e analisarmos. O que torna nós, seres humanos, tão diferenciados? Seria nossa capacidade de pensamento racional desenvolvida ao longo de milhares de anos de evolução, ou seriam as dezenas de sentimentos que somos capazes de vivenciar? Ou trata-se, talvez, da habilidade de fazermos parte de uma sociedade de maneira individual e/ou coletiva? Em outro aspecto, até que ponto podemos ter total certeza daquilo que nossas memórias dizem sobre algo? Afinal, quem nunca se pegou enganado sobre alguma coisa que tinha a total certeza de estar certo? E o quanto isso pode influenciar nas decisões e na personalidade de um indivíduo dali em diante?

Essas são algumas das muitas questões que Cidade das Sombras, filme de Alex Proyas roteirizado pelo mesmo ao lado de Lem Dobbs e David S. Goyer, busca aguçar na mente de seu espectador. Trata-se de uma obra concebida de maneira absurdamente minuciosa por seus realizadores, desde os minutos iniciais; em função disso, ouso dizer que talvez uma única visitada não seja suficiente para capturar tudo aquilo que o universo construído tem a nos oferecer.

John Murdoch (Rufus Sewell) é nosso condutor ao longo da projeção, pois vamos aprendendo sobre aquele mundo na medida que o protagonista da história o faz. Na sua primeira aparição, ele acorda em uma banheira de um ambiente mal iluminado, sem saber como ou porquê foi parar ali: ele percebe um machucado na testa; repara numa espécie de seringa quebrada no chão; estranha um par de sapatos feito novos sobre uma cadeira; e, por fim, se espanta com uma garota morta no chão, junto da cama. A partir daí, John passa a ser suspeito de assassinato e é perseguido pelo inspetor de polícia Frank (William Hurt), além de ser caçado por indivíduos misteriosos chamados simplesmente de Estranhos, que possuem poderes telepáticos. Em meio a isso, ainda descobrimos que ele é casado com Emma (Jennifer Connelly) e que o médico Daniel (Kiefer Sutherland) parece estar a par de toda a situação, mesmo que soe pouco confiável.

Cidade das Sombras é conduzido por Alex Proyas de maneira fluída e compacta, e o cineasta faz um trabalho formidável ao passear pelas diversas camadas que o longa possui: uma ficção científica misturada com drama existencial acrescido de uma história de amor mesclada a um filme policial com pitadas de cinema noir. Do mesmo modo, o trabalho do trio de roteiristas é de grande importância ao amarrar todas as pontas da narrativa, inserindo as respostas para as inúmeras perguntas de maneira orgânica, com exceção de um ou outro momento, onde os diálogos expositivos acabam prejudicando pontualmente o curso natural da história.

Os trabalhos do design de produção de George Liddle e Patrick Tatopoulos, do diretor de fotografia Dariusz Wolski e do departamento de som são fundamentais para o funcionamento do filme. A começar pelos ambientes externos: as ruas úmidas emanam fumaça enquanto o vento assobia, e os edifícios escondidos nas sombras têm um aspecto um tanto gótico. Já os interiores vão desde ambientes com azulejos gastos e sujos até locais com divisórias e móveis de madeira que geram certo aconchego, passando por assoalhos que rangem quando são pisados, em um tratamento excepcional de seus realizadores.

No quesito iluminação dos cenários internos, mesmo que pouca, é suficiente para que a dupla de designers consiga utilizar, na decoração, cores que destoam e que se façam ver, principalmente o marrom e o verde – decorações essas que, diga-se de passagem, surgem com um aspecto retrô graças à fotografia de Wolski, o que combina com a atmosfera mais antiquada característica do universo visto nas telas. Por fim, a concepção dos Estranhos com uma cor de pele extremamente pálida e cabeças raspadas (um aspecto quase que doentio) e figurinos escuros remete a um visual fantasmagórico, enquanto que o local em que eles se reúnem é composto por corrimões e escadas retorcidas e ambientes metálicos – esse último traduzindo a frieza da personalidade dos mesmos.

É desta forma que Cidade das Sombras (Dark City) se revela como uma obra ambiciosa ao levantar questões que encontram ecos na natureza humana tanto dos personagens criados quanto para nós, no lado de cá da tela. A escuridão que toma conta da película torna nossa experiência um tanto angustiante, mas o primor visual do longa é soberbo. Contando ainda com atuações regulares em um elenco que sabe seu lugar, a única ressalva fica para Kiefer Sutherland com seu médico Daniel, onde o ator escolhe por fazer breves pausas a cada palavra que fala – o que, ao invés de transformar o personagem em uma figura excêntrica, surge caricata.

O filme começa com um homem acordando numa banheira, imerso em um liquido que não parece ser agua. Uma clara referencia ao liquido amniótico ou placentário em tom rosáceo, opaco. Uma tentativa de nos remeter ao período fetal.

Logo após ele se levanta e vai ate um espelho fragmentado. Quem conhece o procedimento MK Ultra reconhece que espelhos quebrados em clipes e filmes representam uma autoimagem fragmentada, onde não se sabe ao certo que se é. Uma personalidade fragmentada. Algo que logo fica confirmado no filme, uma vez que o personagem não sabe quem é, onde está ou mesmo por que. Esta desmemoriado.

Vemos também a quebra de um aquário, uma referencia à mudanças de ambiente, transição e retirada de seu meio real. Outra fragmentação psicológica. Choque.

Um telefone toca e há neles algumas inscrições, infelizmente só pude discernir “spirit of comunication”, espírito de comunicação, numa faixa em volta do globo que não é o terrestre visto que o continente não se assemelha a nenhum conhecido.

No outro lado da linha um homem que se identifica como “Dr.” e adverte o personagem, confuso num quarto de hotel ao lado de um cadáver, de que deveria deixar o local, pois logo seria abordado por indivíduos que estão a sua caça.

Se essa narrativa lhe parece com a de um filme muito conhecido chamado Matrix, não é pura coincidência.

Dark City é claramente uma tentativa de Hollywood de inseminar a dissociação cognitiva nas massas. Uma tentativa falha que ocorreu em 1998, exatamente um ano antes do efetivo Matrix, o filme mais audacioso sobre condicionamentos em massa produzido por Hollywood.

Um filme de Alex Proyas, mesmo diretor de sucessos como “O Corvo”, “Eu Robô” e o recente não tão sucesso assim, “Deuses do Egito”, trouxe uma gama de questionamentos sobre a realidade que nos cerca e induziu em sua retórica o desmerecimento de elementos tangíveis em nome de uma lógica metafísica afinadíssima, envolvida numa realidade artificial, em camadas, uma após outra.

Ocorre que onde Proyas falhou, deixando a realidade no filme sombria e distante demais dos espectadores, os irmãos Wachowski fizeram correções e aproximaram o tema do povo, mascarado por cenas de ação factíveis e ao mesmo tempo mirabolantes. Tornar o tom central da trama um segundo plano, envolver em trilha sonora eficiente foi a tacada final em Matrix e arrebatou uma legião de fãs desavisados que acolheram a temática como reflexo do nosso mundo real.

Outro erro de Proyas foi tentar abordar o tema em um só filme. É possível ver diálogos, muitas vezes com as mesmas palavras, no filme Dark City, que seriam usadas no filme Matrix ao longo dos tres filmes.

Alias “Mr.” sempre precede os vilões em Dark City e é impossível não pensar no “Sr. Smith” e na forma como ele repetia :-“Mr. Anderson” em Matrix.

As referencias, se é que se pode chamar assim uma copia tão desavergonhada, são constantes. Tão constantes que deixam claro que estavam seguindo uma agenda.

O filme não perde tempo e trás também uma gama de símbolos ocultistas(erro não cometido por Matrix, que da um “ar” de isenção científica) como a espiral(marca da besta) e o cervo de Cernuno(em evidencia com esfera/espelho luminoso), místicas pagãs nórdicas.

A presença elemental do telefone também é recorrente. Devemos lembrar que o filme é de 98 e assim como em Matrix o telefone representava ainda a fonte primaria de comunicação global. Nada de internet, emails e redes sociais.

Telefones, muito provavelmente seriam a forma de artificializar os homens e é elemento presente tanto aqui(dark city) como em matrix.

Ah, claro que temos também a presença da fêmea e seu biotipo caucasiano de beleza cinematográfica. A bela Jennifer Connelly ocupa o mesmo papel que

Carrie-anne Moss em matrix. É a musa incentivadora. A gênese do amor. A memória não vivida que desafia a realidade científica e ajuda o “mocinho” a transpor os limites da realidade e a força dos inimigos.

Outra diferença entre os filmes é que John Murdock ja possui seus poderes, em menor escala, desde o principio do filme, ja Neo apenas no fim consegue manipular livremente a matrix.

Há também em Dark City a origem das “sentinelas”, aqui espécie de aliens que se instalam no crânio de hospedeiros. Até o formato é o mesmo Undecided . Incrível a descaração dos Wachowski.

Enquanto em Matrix as sentinelas existem apenas no “mundo real” fora da matrix,o que foi outra jogada genial do filme de 99, uma vez que assim a única forma de questionar a existência desse mundo seria “fora” desse mundo e ficamos a mercê da teoria de que não percebemos a matrix por estarmos dentro dela. Uma bela jogada.

A cena da criação da porta para qualquer lugar também está presente em Dark City. Enquanto aqui elas são criadas pela mente de Murdoch, em matrix é preciso da ajuda do “keymaker”.

Sob um fundo investigativo quase onírico a trama , basicamente aborda um mundo surreal.

Uma personificação quântica das vontades de um grupo de aliens que através de uma maquina anseiam se alimentar com nossas lembranças e sentimentos.

Esperam compreender o que é “ser um humano”.Em matrix eles nos querem apenas como “baterias”.

Em Dark City sempre à meia noite, humanos são colocados em torpor momento em que a cidade é modificada. John Murdoch por uma questão não estabelecida não sofre efeito desse torpor em massa. É uma espécie de escolhido. Aliás, sempre há um escolhido capaz de fazer coisas que ninguém mais pode e sempre com características comuns aos espectadores que facilitem a identificação com o personagem.

É durante o “sono” que memórias são inseridas nos humanos através de uma espécie de seringa. A diferença é que a inserção ocorre pela testa enquanto em Matrix ocorre através de um cabo inserido na nuca. Outra copia, ou agenda a ser seguida, como queiram… Tem até uma referência à teoria da “terra plana”.

Há varias outras teorias, citações à evoluções de raças, colapso quântico, aliens etc, mas prefiro não citar para não estragar o filme.

Concluimos que para Proyas e seus colegas roteiristas, a resposta se encontra na cena que John e Emma Murdoch conversam na delegacia. Tratando-se de um filme predominado pela escuridão e pelas sombras, tal resposta surge como uma doce e gratificante ironia o que nos leva a pensar como a sociedade funciona e será mesmo que os critérios sociais nos diferenciam tanto pela meritocracia ou por uma elite das sombras?

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