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A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017) – Crítica

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 Ghost in the Shell é um filme cyberpunk de ação e ficção científica estadunidense de 2017, dirigido por Rupert Sanders e escrito por Jonathan Herman e Jamie Moss, baseado no mangá homônimo de Masamune Shirow. O filme conta com atuações de Scarlett Johansson, Pilou Asbæk, Michael Pitt, Takeshi Kitano e Juliette Binoche.

Num futuro próximo, a maior parte dos seres humanos possui implantes cibernéticos, aprimorando várias características como visão, força e inteligência. Hanka Robotics, a empresa líder mundial em tecnologia de implantes, toca um projeto secreto para desenvolver um corpo mecânico – ou “casulo” – capaz de dar suporte a um cérebro humano ao invés de uma IA. Uma jovem chamada Mira Killian (Scarlett Johansson), a única sobrevivente de um ataque ciberterrorista, é escolhida para o teste após seu corpo ter sido destruído. Contra a vontade da cientista responsável, a Dra. Ouelet (Juliette Binoche), o CEO da Hanka, Cutter (Peter Ferdinando), decide treinar Mira como um soldado.

 

Um ano depois, Mira alcançou o posto de Major no Setor 9, um departamento antiterrorista, e trabalha junto com Batou (Pilou Asbæk) e Togusa (Ng Chin Han) sob o comando do chefe Daisuke Aramaki (Takeshi Kitano). O time consegue conter um ataque terrorista numa conferência da Hanka, e Mira destrói uma gueixa mecânica que foi crackeada e matou um dos reféns. Mira, que vem tendo alucinações que Ouelet considera bugs, vai ficando chateada por lembrar tão pouco sobre seu passado. Após descobrir que a gueixa foi crackeada por um indivíduo chamado Kuze (Michael Pitt), Mira quebra o protocolo e “mergulha” na memória da gueixa à procura de respostas. Ao quase ser crackeada ela própria, Batou a desconecta. Usando as informações que conseguiu, ambos vão a um clube da Yakuza, onde caem em uma armadilha. A explosão que ocorre destrói os olhos de Batou e deixa o corpo de Mira severamente danificado. Cutter fica furioso pelas ações de Mira, e ameaça fechar o Setor 9 a menos que Aramaki a mantenha sob controle.

Kuze embosca uma funcionária da Hanka e a mata. A equipe liga este assassinato aos de outros funcionários, e percebe que a Dra. Ouelet é a próxima. Kuze toma o controle de dois operários em um caminhão e os envia para matar Ouelet. Batou, agora com olhos cibernéticos, mata um deles e o outro é preso por Mira. Durante o interrogatório, Kuze fala brevemente através do homem capturado, e depois o força a cometer suicídio. Togusa o rastreia e o time vai ao local, descobrindo um grande número de pessoas mentalmente conectadas como numa rede. Mira é capturada por Kuze e este revela que foi criado pelo mesmo projeto que a criou – o Projeto 2571 –, mas ele foi uma das tentativas anteriores que falharam. A equipe chega para resgatar Mira, e antes de escapar, Kuze pede a ela que tente tomar conhecimento do passado.

Mira confronta Ouelet, que admite que Mira foi a 98ª tentativa do projeto, e a única a sobreviver; Mira fica transtornada. Cutter decide que Mira não é mais confiável e ordena a Ouelet que a eutanasie, mas Ouelet a deixa escapar, dando a ela um endereço. Cutter mata Ouelet e informa Aramaki que Mira é a assassina, agora fugitiva, e deve ser exterminada.

Mira vai ao endereço e encontra uma mãe viúva, que revela que sua filha, Motoko Kusanagi, fugiu de casa há um ano e foi presa, cometendo suicídio na cadeia. Sem conseguir processar suas emoções, Mira vai embora e entra em contato com Aramaki, que intencionalmente deixa Cutter interceptar a conversa. Batou, Togusa e Aramaki sobrevivem a tentativas de assassinato pelos homens de Cutter, enquanto Mira persegue suas memórias até o lugar onde Motoko foi vista pela última vez. Lá ela encontra Kuze, e ambos relembram suas vidas passadas como radicais anti-implante que foram brutalizados e incorporados pela Hanka para serem usados como cobaias.

Cutter envia um “tanque-aranha” para matá-los, e Kuze quase morre antes de Mira arrancar o motor do tanque, sofrendo sérios danos e perdendo um braço no processo. Mortalmente ferido, Kuze oferece juntar seu “fantasma” ao de Mira antes de ser morto por um atirador do Setor 6. Batou e o resto da equipe resgatam Mira, enquanto Aramaki mata Cutter após pedir autorização a Mira. No dia seguinte, Mira, com o corpo novamente funcional e assumindo sua identidade como Motoko, reencontra sua mãe antes de retornar ao trabalho no Setor 9.

O antagonismo da história vem de Kuze, vilão interpretado por Michael Pitt. O personagem é uma mistura de alguns inimigos vistos em outras adaptações de Ghost, mas aqui não encaixa com o senso de urgência e ameaça que um vilão merece. Com o passar do tempo, ele se torna apenas um peão no avanço da trajetória de Major. Talvez esse seja o grande defeito da adaptação: não possuir um senso de perigo constante, pois seus antagonistas não têm força ou espaço suficiente para tomar o protagonismo de Johansson. Isso serve não só para Kuze, mas qualquer outra pessoa que se oponha à personagem. Quando se trata de adaptações ocidentais de animes, mangás ou outros quadrinhos orientais é apenas natural que as pessoas fiquem com um pé atrás. O histórico dessas releituras certamente não favorece as novas empreitadas de realizadores, considerando que já vimos verdadeiras tragédias como Dragon Ball Evolution e Oldboy, ainda que esse último seja um remake do filme coreano e não mais uma adaptação de seu material original. A verdade, porém, é que essas mídias são dificilmente transcritas para o live-action, visto que até mesmo as versões orientais deixam a desejar. Claro que mais filmes japoneses foram bem sucedidos nesse sentido, mas vale lembrar que praticamente todos os mangás e animes de sucesso acabam ganhando sua versão cinematográfica por lá.

O roteiro se baseia na trama do primeiro anime para dar o ponta pé inicial. A Hanka, empresa que visa melhorar humanos a partir de peças robóticas, começa a fazer experiências para ter um modelo que tenha apenas um cérebro humano e seja 100% robô. Eis que nasce Major. Usada como uma arma pela equipe de segurança do Setor 9, uma das regiões mais violentas da megalópole na qual o filme se passa, a agente procura entender quem ela é naquele novo mundo. Se há um passado por trás daquele “fantasma” dentro de sua casca mecânica ou se ela é apenas uma máquina programada pelos cientistas da empresa. A grande questão é que o público ocidental acaba tomando por base as terríveis produções do gênero, não levando em conta aquelas que são realmente boas, como No Limite do Amanhã e outras que apenas foram inspiradas por materiais orientais, como Matrix e Círculo de Fogo (Pacific Rim). A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell, naturalmente, sofre com tal questão, por mais que sua excelente campanha de marketing tenha reduzido o temor do espectador. Estamos falando de algo baseado na obra de Masamune Shirow, que gerou um dos animes mais importantes já feitos, o medo, portanto, é mais que justificado.

Existiu ainda uma grande polêmica na escolha de Scarlett Johansson para o papel da protagonista. A major Motoko Kusanagi, apesar de seu nome japonês, jamais teve sua nacionalidade colocada em pauta, tanto no mangá, quanto em suas inúmeras adaptações. Ela é um ciborgue, teve seu corpo construído do zero, mantendo apenas o seu cérebro, o qual, também, foi aprimorado com tecnologia. Mesmo sua aparência, nas animações e quadrinhos, não revela sua origem, sendo dificilmente enquadrada em uma etnia específica. De fato, a Seção 9, da qual pertence, conta com uma grande diversidade de membros – Batou, por exemplo, é outro que não sabemos ao certo de onde vem e isso perfeitamente se encaixa no universo criado por Shirow, de tal forma que ele próprio concordou com a escalação de Johansson.

E para contextualizar esse ambiente futurista há um design de produção impecável. O trabalho da Weta é digno de aplausos a cada cena. Um paraíso para fãs do anime e aficcionados por construção de universos. Dos efeitos visuais que montam uma cidade povoada por hologramas até os transeuntes cheios de braços e olhos mecanizados. Tudo parece ter sido tirado de um mundo onde Blade Runner, Mad Max e Matrix se encontraram. Há um delicioso estranhamento familiar no design de Vigilante do Amanhã. As cenas de (re)montagem de Major exemplificam bem isso, ao deixá-la indagar seu criadores enquanto carne e fios se misturam. Ansiedade e frieza juntas no momento da criação. Uma imagem forte que representa a personalidade de quem guia a história.

Tal questão já é deixada bem clara nos primórdios da versão americana. Vemos Mira (Scarlett Johansson) sendo construída de tal forma que fica bastante claro que apenas seu cérebro fora mantido. Nos é explicado que ela é a única sobrevivente de refugiados que vieram de fora do país (interessante que nomes de nações jamais são utilizados). A intenção de criar seu corpo robótico, porém, tem como objetivo utilizá-la como uma arma. De imediato já sabemos que ela é única e em apenas um ano já é colocada como líder de uma equipe destinada a combater o ciberterrorismo e outras formas de crimes, em um universo no qual a proximidade do homem com a máquina é mais presente do que nunca.

Todos os companheiros de seu time é formado por um elenco multirracial, com atores da Dinamarca, Estados Unidos, Singapura, Japão, Austrália, França, dentre outros países. Tal questão garante a percepção de um mundo ainda mais globalizado, no qual as fronteiras entre países se tornou puramente simbólica, afinal, todos podem se conectar através do ciberespaço, um dos conceitos mais recorrentes do cyberpunk, subgênero da ficção científica no qual essa história se enquadra. Essa barreira étnica é ainda mais derrubada pelo personagem de Takeshi Kitano, Aramaki, que somente fala em japonês e todos os outros entendem e falam com ele em inglês, mostrando que o idioma também se tornara puramente estético, visto que a mensagem é automaticamente traduzida pelos cérebros modificados através da tecnologia.

Após os primeiros minutos já encaramos toda a ambientação do longa-metragem como um cenário profundamente dominado pelas corporações. As cidades são preenchidas por propagandas holográficas imensas, remetendo diretamente a Blade Runner, com seus painéis gigantescos nos prédios. Chega a ser desconfortável observar esse universo, que reduz ainda mais o caráter do ser humano, visto que ele se torna apenas um detalhe em um mundo no qual os avanços da ciência o forçam a se aprimorar ciberneticamente para não se tornar obsoleto. Nesse sentido, o personagem Han ( Chin Han) desempenha o papel vital de se diferenciar dos outros: ele é o único humano sem grandes modificações no corpo e o enfoque na humanidade do ser começa a aparecer daí.

Esse problema é ainda mais ampliado quando o vilão, Kuze, começa a aparecer. Um indivíduo desconhecido que hackeia outros ciborgues para matar membros de uma empresa específica. Durante a investigação, Mira começa a se questionar sobre sua própria natureza, se perguntando o que a diferencia desses robôs que Kuze utiliza para carregar sua vontade. Serão suas memórias verdadeiras? Ou algo puramente fabricado pela companhia que construiu seu corpo? Impossível não remeter novamente a Blade Runner, que coloca em xeque justamente esses aspectos do protagonista e aqueles a seu redor. Sim, esse é um dos pontos levantados pela obra original de Masamune Shirow, mas ouso dizer que atmosfera criada aqui em A Vigilante do Amanhã nos liga diretamente à obra-prima de Ridley Scott.

Esse é muito mais que um filme de ação, a obra dirigida por Rupert Sanders foca no existencialismo da protagonista, que mais e mais passa a duvidar de sua própria identidade. Scarlett Johansson, que já se destacara em outras ficções científicas, vide Sob a Pele e Lucy, nos entrega o perfeito retrato do auto-questionamento, duvidando de tudo à sua volta, algo que é deixado bem claro pelos defeitos em sua visão, que começa a enxergar coisas que não estão exatamente ali. A (des)construção da protagonista se faz, portanto, de maneira fluida e somos mergulhados em suas dúvidas, nos identificando cada vez mais com ela. Até que ponto a tecnologia apaga aquilo que realmente somos? O olhar da atriz, ora explorando seu lado aparentemente sem emoções, ora evidenciando seu abalo emocional é capaz de traduzir toda essa jornada interior.

Esse filme que tanto questiona o impacto da tecnologia é um daqueles que, em recente memória, mais faz uso dela a fim de elaborar esse universo distópico. A utilização da computação gráfica aqui é essencial, compondo um retrato imersivo dessa sociedade. Desde os robôs, passando pelas interfaces holográficas,  até os anúncios já mencionados, tudo nos faz acreditar nesse futuro que enterra a identidade das pessoas, com cores sobressaindo ao branco e cinza dos prédios. Esse novo mundo ainda entra em conflito com o antigo, vemos, em algumas sequências, o antigo, praticamente esquecido, sendo bem retratado pela sua sujeira que contrasta perfeitamente com a limpeza daquilo que é vendido como o ideal modo de vida.

Esse aspecto dialoga diretamente com o próprio corpo de Mira: por fora ela é uma linda mulher e por dentro apenas engrenagens e partes descartáveis que podem ser substituídas se danificadas, à exceção de seu cérebro, é claro. Pode-se dizer, portanto, que esse universo carece da alma que define o ser, o ghost presente na mente das pessoas, que se tornam menos humanas a cada dia que se passa. Levando isso em conta fica fácil enxergar como o ciberespaço se configura como algo mais real, visto que lá a identidade das pessoas se torna palpável, ganhando manifestações físicas. Isso tudo vai lentamente construindo a sensação de solidão no espectador, algo ainda mais aumentado pelos diálogos que ocorrem apenas ligando a mente dos personagens, dispensando, portanto, a fala como transmissora de mensagens.

Àqueles que acompanharam o mangá e suas diversas adaptações em anime, pontos como esse são um prato cheio. O mais impresisonante, contudo, é como o roteiro de Jamie Moss e William Wheeler aproveita inúmeras sequências dessas obras que o antecederam, colocando-as em live-action sem comprometer a narrativa, soando como algo especialmente pensado para o filme. Nesse quesito, A Vigilante do Amanhã funciona como uma releitura de tudo aquilo que a antecedeu, com cenas e personagens inspirados em Ghost in the Shell, A Inocência, Arise e The New Movie. Ainda que o caráter filosófico do primeiro anime não esteja presente com toda a sua força, presenciamos aqui um foco maior na identidade e não naquilo que nos torna seres vivos. Dito isso, com essa simples mudança, o longa-metragem solidifica sua relevância, não sendo apenas uma cópia do que veio antes. Além disso, um aspecto importante do roteiro funciona como um verdadeiro tapa na cara daqueles que reclamaram da escalação de Johansson para o papel, uma jogada genial e respeitosa em relação ao material original.

Essa construção somente é prejudicada em determinados pontos pela direção de Sanders, mais especificamente em certas cenas de ação, que contam com mais cortes do que necessário, tornando-as confusas. Não são todas, porém, e no geral, o diretor se sai bem, especialmente por utilizar a computação gráfica não para substituir os atores, mais para complementar suas sequências, especialmente aquelas que fazem uso da invisibilidade de Mira. Dito isso, cada sequência de ação consegue se diferenciar da anterior, fazendo bom uso dos coadjuvantes, especialmente Batou (Pilou Asbæk), que gradualmente tem sua relação com a Major construída de forma que sentimos a proximidade e confiança existente entre os dois.

Outro personagem muito bem elaborado ao longo da projeção é Kuze (Michael Pitt), que se estabelece de forma verdadeiramente assustador, ampliando o conceito de ciberespaço, que passa a se tornar um refúgio desse mundo corporativo, que visa utilizar os ciborgues como meros objetos, armas. É interessante observar como, de vilão, ele passa a ser vítima e a caracterização do antagonista somente é rivalizada pela atuação de Pitt, que nos passa a ideia plena de mal-estar, uma pessoa que somente quer se libertar daquele universo, que o enxerga como descartável.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell traz grande respeito a tudo aquilo que o precedeu. Por mais que não toque de forma tão enfática nas questões levantadas pelo mangá e anime de 1995, o live-action explora outros aspectos dessa mitologia, colocando a própria identidade do ser humano, suas memórias, em xeque. Nossos temores em relação à adaptação foram, felizmente, descartados, ao passo que fomos presenteados com uma obra com valor próprio, que sabe elaborar esse universo futurístico que enxerga as pessoas como substituíveis, sabendo construir seus personagens e um visual completamente imersivo.

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